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Quem sem óculos vai a Roma?

Quem sem óculos vai a Roma? | Crédito: Pixabay

Há alguns anos estive em Roma e fui magnificamente apresentada à cidade pela Bia, uma amiga que herdei do meu irmão e que mora por lá há alguns anos.

Fomos a todas as piazzas, cafés, monumentos importantes e também àqueles lugarezinhos maravilhosos que só os moradores conhecem.

Acontece que em meu penúltimo dia na capital italiana, a Bia tinha um compromisso e não pode ficar comigo durante todo o tempo e foi então que segui para um bar super charmoso pra tomar um vinho numa gélida noite de outono.

Os italianos são maravilhosos, mas engana-se quem pensa que eles têm o espírito brasileiro e o hábito de saírem conversando com qualquer um. Conclusão; fiz amizade com um porto riquenho, que era o músico do local.

Quando se está em um bar, longe de casa há bem mais de uma semana e a milhas e milhas distante do seu amor, ganhar o carinho do saxofonista é confortante e acolhedor.

Conversamos algum tempo em portunhol, italianglês e, quando eu já estava quase o chamando para abrirmos um curso de idiomas, ele subiu ao palco para mais um set e adivinhem? Tocou Fagner.

Chorei com as borbulhas de amor, lembrei-me de casa e de tudo que eu há 5 meses havia deixado pra trás.
O repertório seguiu para bossa nova e eu segui para mais uma taça de tinto.

Lá pelas tantas, fui ao banheiro e, ao retornar, senti minha visão embaralhada, as coisas perderam o foco e por um instante achei que estivesse bêbada. Ledo engano, era bem pior, eu havia perdido meus óculos.

Parei o bar.
Chamei o gerente, falei com o Juan (meu amigo do sax) e como em uma festa infantil, TODOS os presentes começaram a procurar a prenda, no caso, meus óculos.

Voltei ao banheiro e nada, olhei todo o chão; niente, eu já estava desesperada, no dia seguinte eu visitaria o Vaticano e não enxergaria nem Jesus, se ele aparecesse na Piazza San Pedro.
Eu estava arrasada.

Deixei meus contatos com o gerente, pedi um táxi e segui para o hostel.

Naquela noite eu não enxerguei o caminho não só pela miopia como pelas lágrimas.
Uma viagem nunca havia sido tão triste.

Ao chegar, dirigi-me ao armário, no qual havia deixado minha mala.
Como sou muito organizada e precavida, guardo absolutamente tudo e comigo só carrego o indispensável para não correr o risco de perder.

Foi exatamente por isso que guardei dentro da mala a chave do cadeado. Conclusão, estava tudo muito seguro e muito preso e meu pesadelo parecia não terminar.

Chorei ainda mais e passei mal, minha nossa, como passei mal.

Lá pelas tantas, quando eu não tinha mais força e ânimo, fui para o quarto, tirei os sapatos e deitei, com a mesma roupa afinal, minha mala estava presa e já era tarde pra arrombar o cadeado.

Foi então que desenvolvi uma técnica para chorar e rezar sem acordar minha companheira de quarto. Dormi de exaustão.

Na manhã seguinte abri os olhos e minha cabeça explodindo me fez lembrar minimante de tudo o que aconteceu.

Mais uma vez, chorei.

Chorei e rezei, dessa vez bem forte, bem irritada, indignada, passei a bola, a responsabilidade, afinal, estava indo ao Vaticano depois de tantas missas, eucaristias, primeira comunhão, confessionários e terços declamados (gente, quem reza o terço uma vez na vida tinha que ter direito a 3 milagres, no mínimo). Eu não aproveitaria o contato com afrescos, tumbas, esculturas, nada.

Então meu papo foi diretamente com Deus e eu não tava de brincadeira: “Cara, eu já estou aqui e a coisa que mais queria era conhecer o Vaticano.

Mas ainda há uma saída, coloque no meu caminho um camelô, daqueles que vendem óculos pra perto, pra longe, pra vista cansada (vício de carioca).

Me dá uma solução, uma luz, não é justo, logo aqui, logo comigo, preciso de um sinal, juro que nunca mais te peço nada (essa parte, óbvio, ele não acreditou)”.

Findei a reza, abri os olhos, pus o pé direito no chão eis que escuto o som de um milagre.

Meus óculos.

Flavia Francis

Flavia Francis

Publicitária, taurina, pescadora com ascendente em escorpião. Quando some, tá na praia, com seus anzóis ao mar curtindo a brisa e a solidão. Tem uma queda por descobertas e um desabamento por rimas e emoção.
Flavia Francis

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