Um texto para os que têm medo de avião

Um texto para quem tem medo de avião

avião céu cargueiros | pexels

Confiro a malinha de mão pela trigésima quarta vez na última hora. Está tudo lá: o que preciso e o que não preciso. Olho o relógio. Tic tac. Minha amiga diz “eu sei que você tem medo” e eu enfio a unha do dedo mindinho na boca e deixo que a matéria orgânica se dissolva na saliva da ansiedade. O voo está marcado para às 23h e sinto o pânico no pulso direito. Tem que ter coragem para passar pela triagem, tirar os objetos metálicos, respirar fundo e torcer para o apito não te denunciar no saguão lotado. Não sou conhecido pela bravura e choro quando não tem ninguém por perto.

É o avião, penso. E automaticamente surge a voz da minha mãe: “Mas foi você quem escolheu a viagem”. Eu escolhi o destino. Para chegar no destino, preciso passar pela viagem e é ela que me apavora. Todos os assentos lotados, crianças berrando, senhorinhas suando e banheiros apertados. Máscaras de oxigênio cairão em caso de emergência e alguém diz que primeiro a gente precisa se salvar se alguma coisa acontecer. Alguma coisa vai acontecer? Várias interrogações ficam presas quando puxo o cinto e deixo a poltrona inclinada. A aeromoça chega perto para falar baixinho “senhor…”, subentendido.

Viajo com três amigas, mas estou sozinho. Porque, na hora do medo, a gente sempre está sozinho e grita por dentro em um desespero faminto. Alguma coisa me incomoda e sei que é a ausência da segurança. Sinto-me inseguro em cada instrução, em cada mimo do cardápio, em cada barulho que minha cabeça considera “é agora!”. De todas as escolhas, a de partir é sempre a mais difícil. Antes de ir, quero voltar; mas a grande ave metálica de asas mecânicas já corta o ar em velocidade quase inacreditável.

Trouxe um livro, mas essas poesias também foram escritas em ânsia. Por mim, isso aqui bastava. Drummond disse “viro notícia” e, de repente, quem está se decompondo em chamariz na testa sou eu. Dentro dessa periculosidade, sinto cheiros e vou pensando mais ou menos em coisas assim “onde eu fui me meter”, depois penso “como isso é capaz de voar” e depois “aquele calmante não ajudou em nada, eu deveria ter aceitado o comprimidinho da minha avó”.

Não haverá escalas. Chegarei ao destino sem interrupções, mas, até lá, ultrapassaremos contadas cinco turbulências e em cada uma um fragmento meu se tornará autêntico. Ao meu lado, está sentada uma mãe que pergunta “você quer trocar de lugar com meu filho?”. O filho dela tem oito anos e eu estou sentado em uma das saídas de emergência; a comissária de bordo responde “senhora, não é permitido que crianças de oito anos ocupem saídas de emergência”. Ela não sabe, mas, neste exato momento, eu sou um feto indefeso.

Antes de pousar, alguém me oferece água e me afogo no pequeno recipiente. Retorno minha poltrona ao lugar e percebo que não respiro há duas horas, vinte minutos e cinquenta e sete segundos. As rodinhas derrapam pela pista. Obrigado por voarem conosco. Obrigado uma ova, chamem a pessoa responsável por mim. Só sinto alívio quando chego no hotel. Um falso alívio. Daqui a oito dias, farei o caminho inverso. Confiro a malinha de mão pela trigésima quinta vez.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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