Rua da memória • We Love

Rua da memória

Rua da memória

Esses dias, estava na casa da minha mãe quando ela recebeu umas amigas de décadas atrás; trabalharam juntas por muito tempo, mas se distanciaram porque a vida tem dessas coisas. Apesar de não ter participado da conversa, ouvi por alto algumas coisas. Entre risadas e nostalgia, elas falavam de “como aquele tempo era bom”, “como as preocupações pareciam menores”, etc. Enquanto ouvia algumas dessas frases, não pude deixar de notar a semelhança das conversas que tenho com meus amigos de longa data. Apesar de mamãe e suas amigas estarem beirando o meio século (ou talvez passando um pouquinho), o teor da conversa é muito, muito parecido. Até mesmo os conselhos para a amiga divorciada, que precisa se soltar mais e sair para encontrar outra pessoa. Não pude deixar de refletir: Somos todos saudosistas?

É claro que todo mundo sente saudades de alguma coisa, de alguém, de uma época específica. E é até bom, afinal, lembrar de algo com aquele sentimento nostálgico reconfortante dá um certo sentido aos nossos dias atuais, uma vez que podemos aprender com o que fizemos outrora e, consequentemente, trazer um futuro mais claro. Além de fugir um pouquinho dos problemas corriqueiros e urgência que nossas rotinas trazem. No entanto, esse mesmo futuro é incerto. E a incerteza é, por vezes, angustiante. Talvez por isso, o passado sempre pareça melhor, tendo ele tido um desfecho (bom ou ruim) que deixa apenas a memória. E não é só isso. Outro dia, estava lendo algo sobre o tema e me deparei com uma explicação científica: parece que o hipocampo, lá no nosso cérebro, tem essa incumbência de guardar memórias. E quanto mais a gente lembra, menos aspectos negativos ficam marcados e mais os positivos se sobressaem. É interessante analisar isso como indivíduos, donos de nosso passado. Lembro de um relacionamento que tive e me fez sofrer por anos quando acabou. Na época, eram somente mágoas. Hoje, no entanto, quando lembro, meu coração se enche de algo tão bom que não consigo conter os sorrisos. O ruim se foi.

Às vezes, nos pegamos saudosistas ou mesmo melancólicos, sentindo saudade da própria saudade.  E eu tenho impressão que isso está ligado a sensação de que tudo é descartável. Eu nem preciso falar das redes sociais e efemeridade dos relacionamentos contemporâneos para corroborar a afirmativa. De fato, tudo parece muito descartável. Tentando entender essa fuga ao passado numa das minhas sessões de psicanálise, entendi que um passado – vivido ou não – torna-se uma zona de conforto para nós que somos atormentados diariamente pelos afazeres inúmeros e problemas que parecem maiores que nós mesmos. Essa zona de conforto, inclusive, só mostra que estamos sempre descontentes com algo, por isso tendemos a aumentar nossa capacidade de desejar sempre mais.

Apesar de esbarrar com minha conclusão num momento em que eu precisava das minhas lembranças como energético matinal para fazer o dia acontecer, entendi que existe uma diferença entre saudosismo e melancolia, esta última se caracterizando como a felicidade de se ser triste, como explicou Victor Hugo. O saudosismo, que eu entendo como aquela saudade que está posta, sutilmente, entre a lembrança do que já se foi e a ausência do que pode vir a ser, traz uma zona de conforto gostosa de visitar. E se esse lugar que tenho construído já é decorado com memórias lindas, fragrâncias especiais e gostos singulares hoje, ainda antes dos 30, fico imaginando como será quando lá formos, eu e meus amigos, na idade de mamãe e das amigas dela.

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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