Rua sem saída • We Love

Rua sem saída

casal túnel | pixabay

Olhei pr’os nossos pés enquanto nossas pernas estavam estendidas sob a calçada. Você usava sapatos sociais e calça jeans clara, uma camisa bordô desbotada e estava com uma pasta preta que fazia com que seu ar jovial se perdesse completamente, mas… Só se olharem do pescoço pra baixo. A barba preta estava sem fazer havia dias, e os cabelos estavam desgrenhados, formando cachos macios. Os óculos quadrados – ou seriam retangulares? – terminavam de criar uma moldura meio “esporte fino”.

Eu usava calça jeans clara, tênis vermelho quase da cor da sua camisa, porém sem ser desbotado e a blusa ridícula do meu colégio.

Olhar nossas pernas e encarar nossos pés era divertido. Era engraçado ver como eu era baixinha ao seu lado, e como eu parecia uma criança – mesmo sem dizer nada – quando estava com você.

As minhas bochechas estavam coradas, eu tenho certeza. Você falava algo sobre seu passado em sua cidade natal, eu prestava atenção e ria junto contigo. O clima estava leve e eu não precisava me esforçar para você gostar de falar comigo, de estar comigo. Você simplesmente gostava, e acabou.

Seu meio sorriso me derretia o coração e o mesmo músculo pulsante que me deixou na mão meses atrás, vacilava em meu peito, oscilando as batidas entre algo forte e rápido, lento e fraco.

Nesse dia, eu ganhei o abraço mais gostoso de todos. Nesse dia, eu ouvi as coisas lindas saindo dos seus lábios, e nesse dia, eu entreguei uma parte da minha alma já remendada para ti.

O sol em meus olhos não incomodava nem um pouco e ficar de olhos fechados enquanto te ouvia sussurrar era uma das melhores sensações de todas.

Cada célula do meu corpo amava você. Cada célula do meu corpo precisava de você. Cada instante que eu passava contigo longe, eu te desejava perto. Eu devorava as palavras e consumia as lembranças da sua presença.

Da mesma porta que você entrou quase arrancando e largou as malas, você saiu com um semblante triste. Meu rosto tinha uma expressão dura, de quem segura o choro.

Você depositou um beijo em minha bochecha, se virou, olhou por cima do ombro e saiu porta afora.

Eu a fechei lentamente e, cinco minutos depois, soquei a parede até meus punhos sangrarem. Gritei até minhas cordas vocais protestarem, gritei até não sentir mais a voz em minha garganta. Aposto que o síndico quis me expulsar depois dessa, mas ele não tinha esse poder; eu tinha o andar só pra mim, não estava incomodando ninguém. Pelo menos não ao lado.

Meu corpo tremia todo e senti frio, muito frio. A ânsia de vômito estava me incomodando e eu queria colocar meu almoço todo para fora. Mas eu não podia. Eu teria que ser forte, eu teria que aguentar.

Minhas bochechas esquentaram, minhas mãos ficaram frias. Eu estava com raiva, muita, muita raiva.

Abri a garrafa de vodca e bebi pura, do gargalo. Descia rasgando pela minha garganta, mas a cada gota, eu sentia a raiva aumentando. As gotas vermelhas do líquido viscoso caíam ao chão. Eram bordô, assim como meu tênis. Assim como a sua camisa.

Em meu torpor, dei mais um grito. Um último, antes de quebrar a garrafa, que já estava vazia. Mais uma semana. Mais um dia. Mais uma hora…

Eu me rendo.

Gabriela Reis

Gabriela Reis

Gabriela Reis tem 20 anos de idade, cursa jornalismo e é apaixonada pela escrita desde novinha. Autora do blog disenchanted, costuma misturar poesias, contos e desabafos emocionais sobre sua vida cotidiana. Acredita que a jornada da vida seja mais bonita se for acompanhada, e crê sempre no lado bom das pessoas, mesmo que isso custe sua paz de espírito.
Gabriela Reis

Últimos posts por Gabriela Reis (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *