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Se surra resolvesse “viadagem”, eu não estaria aqui escrevendo este texto

adler

Eu sou gay.

Eu demorei muito tempo para soltar essas palavras da minha garganta, mas precisarei falar sobre elas porque preciso contar uma história.

Nunca foi fácil ser gay; acho que pelo menos isso você deve ter percebido. Na rua que você morava ou no prédio, você deve se lembrar de pelo menos um menininho mais “afeminado” alvo de chacotas dos amigos ou de violência física mesmo para “virar homem”. No colégio, você, com certeza, deve ter se deparado com um garoto rodeado de meninas, adorado pelas professoras e que não queria jogar bola. Na família, um primo mais quieto e reservado, com medo de emitir opiniões em voz alta. Silenciosamente conveniente.

Esse fui eu e foram alguns milhares. Pra crianças e jovens, que cresceram antes desta década em que nos falamos – e também nesta década – ser gay nunca fora plausível. Afinal, a gente nem fazia ideia do que era isso. Eu cresci com gays em guetos e núcleos bem específicos. Eles não estavam autorizados a frequentar festa de família, confraternização da empresa ou quermesse de igreja. A gente só os encontrava em salão de beleza ou na TV servindo como alvo de piadas. Nossos pais até podiam ter amigos gays, mas PSIU, isso é um segredo. “Ninguém precisa saber da intimidade de ninguém”.

Minha mãe que hoje está sendo obrigada a evoluir praticamente à velocidade da luz para ser capaz de abraçar a minha orientação sexual sempre teve amigos gays. Mas ela, no auge da sua aceitação, ainda assim, os enxergava como diferentes. Lembro como eram complicadas as conversas em que ela citava a vida de duas grandes amigas. Nunca ficou claro, para mim, criança à época, o que as faziam diferentes de outros casais ou de nós mesmos. Mas elas eram. E eu tive medo de ser também.

Amei uma menina por muitos anos e, talvez, quando não precisarmos mais de rótulos, eu refaça esse texto. Portanto, vivi à sombra desse processo de marginalização do que é ser gay. Vi amigos rejeitando a causa; rejeitando a eles mesmos. Vi pessoas ignorando a violência diária contra LGBTQ+. Vi a sociedade tratando a nossa luta como invisível. Vi a gente, nosso povo, sofrendo.

Eu amo um menino hoje. Ele é incrível e “de família”, como gostam de dizer. Caminhávamos na rua no último domingo; a gente deu a mão, como quase sempre fazemos – à exceção de quando não conhecemos a região, não porque não tenho coragem, mas porque eu prometi aos meus pais que iria me proteger. Doeria muito mais a eles do que a mim apanhar pela causa. Em bairros nobres de São Paulo, maior cidade do hemisfério sul do planeta Terra, a aceitação é grande ou o fingimento talvez. Mas, nesse dia, não. Nos olhos de pessoas, palavras pareciam saltar das suas bocas: “isso vai acabar”. Eu não quis falar nada no momento para não assustar, mas, assim que entramos no carro, o menino incrível ao qual eu amo falou: “você sentiu, amor?”. E a gente sentiu junto, e choramos.

Na minha pequena trajetória de vida gay até aqui, eu me senti ameaçado de verdade poucas vezes – no carnaval, algumas. Enquanto eu aproveitava a liberdade de curtir dias quentes de carnaval, eu ouvi: “viadinho tem que morrer”. Eu ouvi, cara. Ninguém me contou não. Na ocasião, não me calei: “quem tem que morrer é o seu preconceito”. E eu vou continuar não me calando.

Eu quero e preciso ser tratado como igual. E, em hipótese alguma, eu deixarei que vocês nos levem aos guetos novamente. Eu não tenho talento algum para ser cabeleireiro (nada contra essa profissão maravilhosa) ou fazer auto sabotagem em formato de piada. Eu quero o que me fora prometido na constituição: direitos iguais e respeito. Isso é DEMOCRACIA. É isso que vocês precisam entender.

Ele não tem o poder de tirar nenhum dos direitos que conquistamos até aqui. Não de forma direta. Mas, sentado na cadeira de homem mais poderoso do país, ele será referência. Referência de que “ninguém gosta de gay, a gente tolera”.

Eu não preciso da sua simpatia. Hoje, eu me cerco de pessoas incríveis que são capazes de me inundar de amor se preciso. Eu só preciso do seu respeito, porque, se surra resolvesse “viadagem”, eu não estaria aqui escrevendo este texto.

Eu apanhei, meus amigos. E como apanhei.

Da vida, aos montes. E continuo aqui.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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