Se você é contra a legalização do aborto, você é a favor do aborto também • We Love

Se você é contra a legalização do aborto, você é a favor do aborto também

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Eu engravidei com 16 anos. Quase 17. Quando descobri, minha primeira preocupação foi: será que eu vou conseguir fazer faculdade? Depois, eu pensei que minha mãe me mataria e meu pai ia morrer do coração.

Mas não matou.

Meu filho foi amado desde o primeiro segundo. Na verdade, essa foi a primeira coisa que meu pai me disse quando ficou sabendo. Uma das coisas que mais me emociona/ou foi quando meu tio-avô me ligou e disse: você não achou que o tio ficaria bravo com você por isso, né?

Eu nunca me preocupei se ele iria ter comida, se iria faltar fralda, se ele teria escola para estudar. Tivemos pré-natal e, até, ultrassom 3D. Tomei vitaminas desde a primeira consulta. Ele nasceu em uma maternidade particular, já com plano de saúde, o qual ele tem até hoje. Teve álbum de fotos, DVD, enfeite na porta, acesso a todas as vacinas (particulares ou não) e exames (particulares ou não). Com certeza teve mais do que eu nem vou me lembrar hoje, 11 anos depois. Minhas amigas foram me visitar. O pai estava(eve) presente, a família dele participou de tudo. Teve berço, berço-acampamento emprestado dos padrinhos, dois carrinhos (um novo e um emprestado), moisés… Foi amamentado até quase dois anos, livre demanda, quando não quis mais.

Eu? Eu fui para a faculdade que eu quis, um ano depois. Minha mãe cuidava dele de manhã, durante as aulas e, à tarde, ele ia para a creche, paga com ajuda do auxílio-babá. No nosso bairro, eu ia a pé buscar ele – que gritava tetê!, e não mamãe!, porque obviamente sentia mais falta dos meus peitos do que de mim (tudo bem, eu também sentiria). Terminei a faculdade, fiz intercâmbio, pós-graduação e trabalhei na empresa que sonhava desde os 13 anos. Tudo se acertou perfeitamente, como se sempre tivesse sido daquele jeito.

Só que eu não posso acreditar que todo mundo tem essa sorte. Eu não posso pensar que a minha realidade é a mesma de todas as mulheres.

Eu não posso pensar que o Brasil é um país em que todos têm os mesmos privilégios que eu e meu filho. Pior: eu não posso dizer que sou pró-vida e fechar os olhos para a realidade de bebês e crianças não desejadas ou nascidas em situação vulnerável. A vida não começa no útero. A vida começa com acesso à saúde básica (pré-natal, vitaminas, etc durante a gravidez; vacinas, consultas, etc, depois), alimentação adequada, educação e segurança durante a vida. E amor. A vida toda.

Nenhuma criança merece nascer em um ambiente não desejado. Nenhuma criança merece nascer sem acesso ao básico e ao que merece. E isso não é ser contra a vida. Isso não torna de mim uma assassina. Pelo contrário. A meu ver, me torna, também, uma pessoa que luta pelo direito ao nascimento e a uma vida digna – assim como eu ou meu filho temos.

Goste, ou não, a realidade é que países que legalizaram o aborto tiveram uma queda nos números de procedimentos realizados. Em outras palavras, isso quer dizer que, se você é contra a legalização do aborto, você é a favor do aborto também. Olha só que ironia.

Goste, ou não, a realidade é que o aborto acontece, com o seu conhecimento ou não. São cerca de 50 mil ao ano no Brasil. A diferença é que quem tem dinheiro realiza o procedimento em clínicas particulares e quem não tem, em lugares clandestinos. E morre. E/ou recorre ao Sistema Único de Saúde (o SUS, aquele que querem sucatear) para depois. Isso também quer dizer que não legalizar o aborto é mais caro para a saúde pública do que realizar, se você prefere pensar na economia do país.

Goste, ou não, a realidade é que você conhece alguma mulher que já abortou. Uma a cada cinco mulheres com mais de 40 anos já abortou, segundo dados do Ministério da Saúde. A título de curiosidade, o perfil da brasileira que aborta tem entre 20 e 29 anos, é religiosa (majoritariamente católica), está em um relacionamento estável, faz uso de métodos contraceptivos e já tem filhos. E esses dados não são novidade. Estão disponíveis para quem quiser se informar. Basta pesquisar.

Legalizar o aborto também garante que mulheres que sofreram abortos espontâneos tenham o atendimento – médico e psicológico – adequado. Legalizar o aborto não obriga ninguém a realizar o procedimento. Legalizar o aborto não autoriza ninguém a ir até a porta da sua casa falar sobre as vantagens em abortar ou apoiar financeiramente o procedimento. E tem mais: legalizar o aborto não faz com que você deixe de ter a “sua opinião” sobre o assunto. Você pode continuar achando ou acreditando no que você quiser – até que não foi golpe. Só não duvide do que os números, e não eu, têm a falar.

Ana Sasso

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

Comments

  1. Texto maravilhoso e coerente. Precisamos de mais discussão, informação e apoio. E só vamos conseguir isso dando às mulheres direito de escolha em condições decentes.

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