Se você se identificou, fod*# • We Love

Se você se identificou, fod*#

cérebro expandido meme | reprodução: youtube

Réu confesso: não mais julgo livros pela capa. A compulsão pela compra em queimas de estoque promovidas, principalmente (mas não exclusivamente), pela gigante da seta amarela, me levou, nas últimas semanas, a adquirir títulos cujas sinopses passaram totalmente desapercebidas por meus olhos. Enquanto alguns poderiam classificar tamanho ato de heresia como um surto consumista, defendo veemente o benefício econômico – ME DIZ COMO NÃO COMPRAR UM PAR DE LIVROS QUE DE 100 DOLETAS PASSOU PRA 20?

No mais recente dos ataques, a fatura do cartão denunciava a compra de três publicações do romancista Paulo Rodrigues. Para evitar o enlameamento do nome que assina abaixo da presente prosa, paguei. Dias depois, desenrolava do plástico bolha a tríade recém-adquirida enquanto, em silêncio, refletia sobre mais essa pequena derrota pessoal – ME DIZ QUEM COMPRA UM LIVRO SEM SABER PICAS DO AUTOR OU DA HISTÓRIA?

Aventureiro (e um tanto cabeça dura), me dispus a ler, sem dispor de informações prévias sobre as respectivas narrativas ou do nome que reclamava sua autoria.

Três parágrafos depois, vou ao ponto: para quem tem traumas psicológicos mal resolvidos, acredita ser escravo do próprio cérebro e, por vezes, se auto-diagnostica sociopata, Rodrigues é pai que pega no colo e, com um toque leve, acaricia a camada mais superficial da alma enquanto emite um sonoro ‘tá tudo bem, meu anjo’.

Baseando-se na descrição acima, o leitor sagaz afirmaria que trata-se de mais uma obra mal escrita de gênero ‘autoajuda’, mas já deixo explícito que tal alegação seria um erro – pelo menos no que tange os parâmetros literários.

Rodrigues escreve contos sob a ótica de um narrador onisciente. Ao suavizar o protagonismo das ações e direcionar os holofotes para os conflitos psicológicos que decorrem em consequência dessas, o literato coloca suas personagens em um divã onde o leitor, por vezes, vê a si próprio. Sem pudor algum, o ser humano é exprimido em sua forma mais emocional e verossímil. A meu ver, esse é o ponto-chave.

Em algum momento de nossa breve passagem pelo planeta Terra, um humanoide teria afirmado que somos seres racionais. Acho de uma pretensão absurda e convido os indivíduos discordantes a uma série de sucintos questionamentos:

Você já pensou em métodos cruéis de tortura (ou, economizando o eufemismo, pensou em ‘matar’) durante um surto de raiva? Já quebrou um vaso, prato ou qualquer material de vidro em meio a uma discussão? Já liberou quantidades absurdas de chorume pela boca para ofender quem ama no calor do momento e se arrependeu minutos depois? Já cogitou sacrifícios e/ou magia negra pra prender o crush? Congrats. You’re emotional.

Somos movidos pela emoção e, felizmente, barrados pela razão – salvo casos dignos de Linha Direta/Datena. Esses são alguns dos processos mentais explorados nas narrativas de Rodrigues e, pelo menos para o leigo leitor que vos escreve, é o que gera o fator ‘identificação’.

Aos curiosos, registro aqui meu apreço e recomendação pelas obras Redemoinho e As Vozes do Sótão.

Tudo isso para dizer que: comprar compulsivamente é ruim, mas, às vezes, é bom.

Igor Amâncio

Igor Amâncio

Produtor de conteúdo no We Love. Quase jornalista, amante da música, arranha um violão como ninguém. Um dia decidiu deixar de lado o video game e resolveu jogar com as palavras.
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