Sem feminismo meio-termo – We Love

Sem feminismo meio-termo

Poderia começar esse texto expondo as pautas feministas no geral, mas não tenho o conhecimento especializado para tanto. Há, dentro do feminismo, várias correntes, com pensamentos e posicionamentos distintos. Não existe “o” feminismo único, mas vários.

Não posso falar por todas as mulheres feministas. Somos um movimento diversificado e em constante construção. Mas resolvi falar sobre o feminismo que tento construir todos os dias. Tendo como base tudo o que li, ouvi, vi e continuo aprendendo com tantas outras feministas que me inspiram.

“Feminismo é odiado porque as mulheres são odiadas. Antifeminismo é uma expressão direta de misoginia; é a defesa política do ódio às mulheres.” (Andrea Dworkin)

Muitas pessoas passam a te olhar diferente quando você se posiciona feminista. Principalmente, se você começa a dar voz ao que você acredita. Surgem olhares de estranhamento ou aquela cara de preguiça nítida. “Nossa, agora, você vê machismo em tudo”, ainda completam.

Bem, não vejo machismo em tudo, mas ele, infelizmente, está enraizado na parte mais profunda da sociedade e muita coisa que pode soar como “bobagem”, nada mais é que um sintoma de algo muito maior, que nos afeta diariamente. Muitas vezes de forma violenta e cruel.

Costumo comentar em círculos de amigos, que é como se tivesse caído um véu dos meus olhos e, hoje, percebo comportamentos – que fiz durante muitos anos, vale ressaltar – que nos aprisionam, que nos ensinaram desde o começo das nossas vidas e não percebemos que, inconscientemente, acabamos sendo cúmplices e vítimas do machismo. Perceber esses resultados é dolorido, porque você começa a ver quão profunda é essa “doença”.

Talvez o mais aterrorizante é ouvir de círculos de amigos e amigas, que “tudo agora virou mimimi”. É o reflexo mais gritante de como o machismo é visto como normal e socialmente aceitável. Defender o feminismo é um grito de socorro. Talvez, não para mim, particularmente, mas por outras que vieram antes e virão depois.

Dentre tantas bandeiras que o feminismo levanta, eu destaco algo voltado, justamente, para nós, mulheres, começarmos a enxergar o quão aprisionadas estamos na sociedade patriarcal.

SORORIDADE.

• (s.f.) Relação de irmandade, união, afeto ou amizade entre mulheres, assemelhando-se àquela estabelecida entre irmãs. União de mulheres que compartilham os mesmos ideais e propósitos, normalmente de teor feminista.

• É o pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo.

• É a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum.

A sororidade, nada mais, é que se colocar no lugar da outra. Crescemos numa sociedade que nos estereotipa e limita todos os dias: “Meninas não jogam futebol” ou “Meninas não podem se sentar de perna aberta”. Fomos criadas para competir com outras mulheres. Fomos ensinadas a diminuir a outra para nos destacarmos para o homem. Porque homem é “o prêmio”. “Aquele cara é muito bonito para aquela menina”, quem nunca disse ou ouviu essa frase? É um pensamento tão rotineiro que surge, inconscientemente, porque fomos educadas assim.

“O feminismo não é o oposto do machismo e, sim, a luta por igualdade em uma sociedade que há anos vem sido comandada pelo patriarcado”, bem pontuou uma baiana-carioca em um grupo de WhatsApp. Porque a história é aquela, mesmo você não concordando, não desvalorize o movimento. Não defina o feminismo como exagero.

No Brasil, tivemos 12 assassinatos de mulheres e 135 estupros POR DIA, segundo dados de 2017, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil.

Todo mundo tem o direito de não ser feminista, mas, se assim o escolhe fazer, não pode nem deve desmerecer todo um movimento que luta por todas as mulheres. O feminismo luta pela oportunidade de direitos iguais entre homens e mulheres. Sem comparações ou ser rebaixada perante um homem. Vale destacar as mulheres do sertanejo, que se definiram como “Feminejo”. É exagero? NÃO! É a luta por igualdade dentro de um espaço primordialmente masculino.

Temos ganhado notoriedade. Temos alcançados mais direitos. Mas ainda é um caminho longo a ser percorrido. E ficará ainda mais difícil se as mulheres não se unirem. Juntas, somos sempre mais fortes. Mas esse ‘juntas’ contempla todas as mulheres, não só as do nosso círculo.

Selecionei e debati com as amigas feministas, que tive a sorte de ter na vida, porque é tão importante nos posicionarmos feministas, sem meio termo. Sem meias palavras. Precisamos abrir o peito e gritar, em uma única voz, “WE SHOULD ALL BE FEMINISTS!” (Chimamanda Ngozi Adichie).

1. Porque gostaríamos de andar na rua sem ter que ouvir comentários. Sem ter medo. Sem ter que apressar o passo. Sem ter que dar a volta para evitar a construção, o grupo de homens. Queremos ter o direito de usar a roupa que quisermos sem julgamentos ou sem ouvir que está “pedindo” para ser estuprada ou assediada. Sem ter a sensação de ser comida com os olhos. Queremos ser donas do nosso corpo. Queremos não sentir culpa ou vergonha ou humilhação por querermos denunciar um agressor.

2. Porque queremos que as mulheres possam decidir como, quando e com quem transar. Sem ser definida como “puta” ou implicando que estarão sempre disponíveis. Queremos que o homem se preocupe em nos dar prazer quando transamos, ao invés de pensar só em si, e que não nos chamem de vagabunda quando decidirmos transar na primeira noite.

3. Porque queremos que nossos filhos – se decidirmos tê-los – possam ser o que eles quiserem, independente do cromossomo X ou Y que lhe for sorteado.

4. Porque queremos receber o mesmo que o nosso colega do sexo masculino pelo trabalho feito com a mesma qualidade e experiência. Queremos ter as mesmas oportunidades de promoção e desafios, sem que isso signifique ter que trabalhar e entregar o dobro e ser julgada socialmente, como “ambiciosa demais”.

5. Porque não precisamos que abram a porta para nós, nem que carreguem nossas malas. Podemos pagar nossas contas e as suas se quisermos. Não precisamos de cavalheirismo. Precisamos de respeito. Não nos importamos se um homem abrir a porta, desde que ele não se importe que nós façamos o mesmo por ele.

6. Porque queremos poder libertar mais mulheres presas em relacionamentos abusivos (leia-se lixos), com medo e sem coragem. Porque não reconhecem o PRÓPRIO valor e não podem contar com a sociedade patriarcal em que vivemos.

7. Porque queremos um mundo mais justo, mais humano e mais igualitário. Queremos empatia e compreensão e colaboração entre TODOS OS HUMANOS.

Existem muitos mais motivos para lutarmos pelo feminismo. Existem muitos comportamentos que nós, mulheres feministas, ainda reproduzirmos. Por isso é importante o debate, o repensar, o questionar. Talvez, você não concorde com a minha lista. E tudo bem, mas precisamos combinar que, seja lá quais forem os seus motivos, ser feminista é fundamental. Para todos nós, homens e mulheres. Nós, humanos.

Bruna Guimarães

Bruna Guimarães

Jornalista & fashion lover. Made in Aracaju, living in São Paulo. Acredita que o amor é sempre destino e glitter, uma segunda pele. Louca por carnaval e mar e sorrisos e pessoas interessantes.
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