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Sexo não me surpreende

cama lençóis pés | pexels

Esse não é mais um texto que vai falar sobre como o sexo é superestimado, fruto de uma lavagem cerebral da mídia. Tampouco é uma ode ao desprezo por relações sexuais. É apenas mais um despejo de sentimentos e sensações (estou evitando a palavra “desabafo”) que me preocupam, às vezes. Não sei se deveria me preocupar. A preocupação pode ser mais uma filha bastarda da glorificação do sexo. Talvez eu não devesse nem prestar atenção ao anjo mau do meu ombro esquerdo que sussurra ao meu ouvido: “isso aí é complicado, viu?”.

Mas o fato é que está lá. Consciente e subconscientemente.

Tento retroceder para ver se algo surgiu no início ou para achar alguma justificativa plausível para este “incômodo”. Não vou adentrar no mérito das minhas desventuras, até porque não estou pronta para destilar angústias muito fortes. Vou apenas relatar fatos mornos que, como numa psicanálise, tento desvendar; desejos e traumas íntimos consequentes do meu Id, Ego e Superego.

Vamos apenas simplificar para o fato de que eu tive experiências, neste âmbito, quando ainda muito nova – para parâmetros aceitáveis na sociedade, digamos assim (aquela mesma sociedade que injeta poder nas veias da sexualidade, mas tudo bem). Tudo isso se complementa com pai e mãe complacentes, compreensivos e a favor do diálogo. As conversas foram naturais, as dúvidas esclarecidas, os preconceitos desmantelados.

Ao passar o tempo, me vi cada vez mais aberta a discutir e falar sobre esses assuntos. Lembro-me de uma situação na qual a professora, por volta da sétima série, disse para dissertarmos sobre qualquer assunto relativo a adolescência numa redação. Eu sugeri, como quem sugere Coca com gelo: “masturbação?”. Algumas risadas nervosas e uma expressão levemente surpresa da professora e todo mundo já me associou com alguém que fala sobre sexo abertamente. Sem frescura.

Eu gostava dessa “fama”. Quem já leu textos anteriores, sabe que eu sempre gostei de ser misfit, fora do padrão, chamando atenção por algum fato interessante. Bom, nada mais interessante do que falar sobre sexo na época em que os hormônios estão à flor da pele e o tabu da sexualidade está mais forte do que em qualquer outra fase da nossa vida.

Isso poderia ter me causado experiências desagradáveis, confesso. Sei de garotas que, por serem mais resolvidas com o seu corpo e sua sexualidade, sofreram nas mãos de garotos que confundiram esta naturalidade com libertinagem e abuso. É triste. Mas, seja por minha educação religiosa ou por meu carão de pessoa séria (é o que escuto), graças a Deus, isso nunca ocorreu.

Porém, tanta tranquilidade pode ter me gerado uma certa sensação de “o que você pode me oferecer que eu já não sei?”. Não que eu soubesse de tudo – longe disso. Mas, ao transmitir aquela mensagem, eu realmente nunca fui surpreendida. A energia de “subestimar” o outro, talvez deixasse tudo mais desajeitado, mais confuso. Não sei. O fato é que, dentre as variadas experiências que obtive ao longo de uns cinco ou sete anos de vida sexual ativa, nada me surpreendeu – positivamente, vale ressaltar.

Quem tem vida sexual ativa com mais de um parceiro (a) sabe que se surpreender negativamente é mais um dia no trabalho. Acontece com frequência e quase sempre.

A falta de momentos surpreendentemente positivos (quero pausar para deixar claro: não falo em surpreender como algo extraordinário; apenas o suficiente para te tirar dos teus próprios pensamentos por alguns minutos), foi, aos poucos, me deixando mais frustrada. Cansada, na verdade. Mais do mesmo, mais do mesmo… Não era o suficiente.

Antes que entrem no mérito do amor ou da falta dele, quero lembrar que se é exaustivo e difícil encontrar uma boa transa, imagina um bom amor. Pensa melhor.

Vou tentar exemplificar de forma mais objetiva as voltas em círculo que dei nestas relações em 10 passos:

1 – Conversa fiada. Papo sobre carreira, estudos, vida social, música, filmes, às vezes família;

2 – Beijos babados ou tentando encontrar o ritmo um do outro;

3 – Mãos que apertam cintura, braços, peitos e bunda. Respiração pesada e sentindo melhor os corpos;

4 – Pausas desajeitadas para tentar combinar com breves palavras onde vai acontecer;

5 – Motel, carro, banheiro, quarto. Não importa onde, começa o ritual de beijos, apertos e as leves provocações (mordidas, lambidas leves, gemidos contidos);

6 – Retiram-se as roupas. Observa-se por entre frestas dos olhos os detalhes do outro corpo. Desfruta-se desses pedaços. Mais mordidas, mais lambidas;

7 – Preliminares previsíveis (sexo oral, mais apertos, mais dedos intrusos/curiosos, mais gemidos, mais mordidas, mais saliva, mais respirações entrecortadas);

8 – Penetrações. Com vontade, com empolgação. Estocadas fortes que te balançam completamente. Naquele momento (para mulheres héteros) parece que ele se desconecta de você. Geralmente os olhos se transformam. Ficam mais vermelhos, mais intensos. O movimento é ele quem faz. Mesmo quando você executa, você fica levemente desconcertada com o semblante de leve impaciência do tipo “deixa que eu faço”. Não resta nada a não ser ceder. É bom, mas…

9 – Gozo. Não uso orgasmo porque nem sempre, não é mesmo? O seu: vibrante, relativamente satisfatório. O dele: quase uma libertação de correntes. Histérico, porém, sem grito (às vezes com, para sua surpresa).

10 – Mais conversa fiada. Pode ser intercalado com cigarros, mais preliminares, mais sexo, talvez. Igual ao anterior, nada novo.

E, nestes passos, você volta para casa, toma um banho mais caprichado e vai dormir. Satisfeita?

Pode ser. Surpreendida positivamente quando falei há alguns parágrafos? Não.

Volto a repetir diante da necessidade de enfatizar: não me refiro a malabarismos ou posições de kama sutra que te deixam extasiada e sem fôlego, achando tudo aquilo sobrenatural.

Refiro-me a momentos que, pelo menos, te desliguem da louça que tem para lavar em casa ou da mosca no teto e te façam pensar no que está ocorrendo naquele instante.

“Poxa, Maluh, acho que você nunca fez um sexo bom, então.”

Fiz. Os dez passos que falei e que vivi ao longo da minha vida foram bons. Não digo que foram ruins.

Só se tornaram previsíveis. Rotineiros. Mais do mesmo.

Argh… enquanto digito, me canso novamente. Não sei se todos vão interpretar (incrível como eu me vejo citando textos anteriores) da forma correta. Não sei se alguém por aí sente o que eu sinto. Afinal, com essa cultura hiper-sexualizada tenho a sensação de que todos fazem sexo o tempo todo – e gostam muito. Só eu que não acho nada demais.

Devido ao marasmo das relações, estou há um tempo sem. Um tempo mais longo do que aceitável pela sociedade moderna do século XXI. No início, foi difícil. Frustração, impaciência, desespero. Com o tempo, acredite: estou mais leve. Menos preocupada, mais tranquila e sem desconforto. Acabei me dando mais tempo. Mais tempo mesmo.

A gente acha que se dá tempo, mas não dá. Relações interpessoais exigem muito da nossa energia. Sugam, querendo ou não. Pude me conhecer mais, me desbravar mais, em todos os sentidos. Talvez esta fase de descobrimentos me favoreça para um vida sexual menos monótona no futuro. Também não sei dizer.

O que sei é que estou bem, no fim das contas. Talvez o que me deixou mais surpresa (positivamente, claro) foi o fato de eu estar ‘ok’ em não ter vida sexual ativa. Fiquei estupefata com a sensação de tranquilidade, com minha calma para resolver questões do meu âmago e com a leveza da rotina. Do futuro, ninguém sabe. Mas uma surpresa igual a essa, sexo nenhum me proporcionou até hoje.

Maluh Bastos

Maluh Bastos

Pernambucana, DJ em andamento, jornalista e aspirante em advocacia. De pouco a pouco, é alguém que acredita na liberdade de escolha e na igualdade social. Fã de harry potter e no âmbito da música aconselha sempre que siga seu coração e, nunca, NUNCA apenas o que todo mundo ouve.
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Comments

  1. Sexo so por sexo…eh assim mesmo. Por maiores e melhores posições que existam…O entrelaçamento mecânico de corpos é fugaz, repetitivo, e sem graça!! Então, neste caso, uma boa masturbação resolve e sem o saco de aguentar um parceiro com discursos bobos desinteressantes, do pós sexo.Então. ..Essa lavagem D’alma, descarrego de Adrenalina, emoção a flor da pele…Se transforma num ato perfeito e magnânimo quando feito com amor e com um parceiro que admiramos e respeitamos. Sexo só por sexo é exaustivo e melequento rsrs. Na contra – mão, por sua vez. ..feito com vontade eh sensacional e revigorante. Por isso digo: keep Calm. ..Antes só do que mal acompanhada, aborte um sexo apenas pela quantidade, valorize-se e se dê a oportunidade de um sexo com qualidade.Eu mesma, me privei por muitos anos ( de forma consciente), e por minha livre escolha ( pq sempre aparece um parceiro engraçado hoje se oferecendo), mas como disse em um dos paragrafos, sem sentimento é exaustivo e melequento rsrs. Mas enfim…acredito que pra cada um…existe aquele momento de encontrar a tampa pra panela, sandalia velha pra um pé cansado e etc. Kamasutras à parte, repito: com sentimento ,com respeito ao corpo de cada um,um Papai e Mamãe vale muito à pena !!!
    Como sempre, seu texto bastante elucidatipo e gostoso de ler 👏👏👏

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