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Sincericídio

Sincericídio

Eu sou mestre em cometer sincericídio. Acho que começou porque eu sou o que alguém chamaria – politicamente corretamente – de autoconfiante. Se o tal “alguém” não fosse PC, diria que eu sou folgada mesmo. E se o “alguém”, no caso, tivesse problemas de autoconfiança ele (ou ela) mesmo e complexos diversos, diria que sou arrogante. Não por nada, mas esse “alguém” também perdeu o dicionário e não sabe o real significado da palavra arrogância já que uma coisa não está, nem um pouco, ligada à outra. Mas, tudo bem. O que não está em falta, esses dias, é gente que não sabe o que as palavras realmente significam. (No entanto, falam e escrevem, mesmo assim.)

Meu problema – eu, pessoalmente, acho que é uma de minhas qualidades – é que eu acho que a verdade tem que ser dita. Doa a quem doer. Tá lá, o tal “alguém”, dizendo que eu não tenho muita empatia. O que eu não tenho é paciência, moço. 

Minha irmã sempre me pergunta se eu quero ter razão ou ser feliz. Claro que eu quero ser feliz. Mas, de vez em quando, meu diabinho se ataca e quer ter razão, fazer o quê?

Eu sei que, em várias ocasiões, sou considerada agressiva. Se eu fosse homem, só seria “direto”. Afinal de contas, para um homem ser chamado de agressivo, ele tem que dar um murro na cara de alguém. Pensando bem, talvez seja isso: ouvir verdades, sem meias-palavras, da boca de uma mulher, para um homem, é que nem tomar um murro na cara. E, para uma mulher machista – ou ignorante mesmo – é que nem ser ameaçada por um homem.

Pop-up mental. Preciso confessar que eu sonho em dar um murro na cara de alguém. Outro dia, jogando conversa fora, num jantar entre amigos, a pergunta foi: qual uma coisa que as pessoas não achariam legal que você tem vontade de fazer? A minha foi isso. Procura-se uma aula de boxe. Fecha pop-up mental.

A mesma irmã que diz que eu devia ser feliz sempre me recomendou não cometer sincericídio. “Tem coisas que não precisam ser ditas” e o meu diabinho perguntando: “o quê? o quê, por exemplo?”, soltando fumaça pelas orelhas.

Eu faço análise. Cometo sincericídio contra mim mesma uma vez por semana. Sim, eu também já ouvi a máxima de que  “todo mundo mente pro analista”, mas eu acho muito esquisito a gente pagar pra mentir pra alguém. Mentir é de graça. Talvez seja por isso que as pessoas mentem com tanta facilidade. Tá aí uma ideia, pagar pra mentir. Quem sabe funcionaria?

Certamente que não é tão simples assim; a análise não é um momento para dizer a verdade ou mentir, é um momento de reflexão e eu acredito que muita gente nem nota quando está mentindo para o analista, porque, antes de qualquer coisa, está mentindo pra si mesmo. Creio que, porque eu sou sincericida – ou porque faço terapia desde os treze anos – eu tento buscar as minhas verdades e sessões em que me iludo acreditando no mundo que inventei ao meu redor ou ao redor dos outros, são sempre seguidas de uma sessão em que tudo isso desmorona e eu passo, pelo menos, uma noite sem dormir.

Esse final de semana, eu não estava com vontade de sair de casa. Como eu sou maior de idade, pago as minhas contas e não devo satisfação a ninguém (note o tom defensivo dessa que vos escreve), ainda que meu grilo falante me alertasse que eu devia sair, passear, respirar o ar da cidade; eu me tranquei com meus controles remotos e dois livros de serial killers – adoro – e passei dois dias de pijama, num momento pós-adolescente. Digo pós-adolescente porque não incluiu Doritos e afins. Quando a gente é pós-adolescente, junk food é uma mistura de vinho tinto, pão sem glúten e queijos diversos.

As escolhas na tela: “The Walking Dead“, “Defiance“, “The White Queen“, “Criminal Minds“, “Homeland“, “The Affair“, “Code Black” e “The man in the High Castle“. As escolhas na telinha: notícias do Brasil, notícias de tecnologia e do mundo. Escolhas no papel: dois livros de serial killers, mas só vale mencionar o último da Patricia Cornwell na série da Kay Scarpetta, uma de minhas personagens favoritas de todos os tempos.

Destaque para “The man in the High Castle”; uma série original da Amazon que é a adaptação, para a TV, de um livro de Philip K. Dick e imagina um mundo em que os aliados não ganharam a Segunda Guerra e o que hoje nós chamamos de Estados Unidos é um território dividido entre Alemanha e Japão; obviamente o primeiro na costa Leste e o segundo na costa Oeste. Eu assisti apenas ao primeiro capítulo, mas já posso dizer que certamente vou assistir o resto.

Todo Dezembro eu – e acho que é uma coisa cultural de quase todos os Brasileiros – reflito sobre o ano que passou e fico ansiosamente esperando o dia 31, em que posso cantarolar “adeus ano velho…”, olhar pro céu e pro mar, fazer pedidos silenciosos e acreditar que o odômetro vai zerar à meia-noite. Semana passada, eu pensei muito em 2015 e em tudo que eu acho que preciso deixar pra trás e em tudo que pode estar me esperando daqui pra frente. Na minha loucura, fiz uma lista. Na minha ansiedade pelo final de ano, andei esquecendo compromissos.

Dizem que o que diferencia o ser humano dos outros animais, ou o que nos define, não sei direito, é nossa capacidade de contar histórias. As histórias nos dão contexto: nos dizem de onde viemos, onde estamos e para onde vamos.

Depois de um final de semana inteiro consumindo histórias do passado, presente e futuro, eu passei uma noite acordada debatendo a tese da minha irmã: será que vale mais a pena ter razão ou ser feliz?

Continuo achando que não é tão simples assim. Que não consigo viver de forma binária. Mas, quando a meia-noite chegar, no próximo dia 31, minha resolução e meu pedido serão para que, a partir da zero hora, eu deixe a razão de lado mais frequentemente. E que essa seja a minha história daqui pra frente.

Fefa

Fefa

Administradora, wannabe escritora. Tenho alergia a quem usa muito jargão, acha que design thinking é novidade e não respeita o tempo dos outros. Se eu pudesse viajar no tempo e conhecer uma pessoa, essa seria a Rainha Elizabeth I.
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