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Sobre minha experiência midiática

Sobre minha experiência midiática | Alexandre

Como diz o ditado popular, há males que vêm pra bem. Há males que vêm pra mal, também. Eu, com minha experiência de vida, acrescento: há bens que podem se tornar verdadeiros tiros em nossos próprios pés.

Na verdade, eu já imaginava que tipo de fruto poderia colher ao participar de um programa de TV. Minha intenção era promover a visibilidade da pessoa com deficiência no mercado de trabalho. A ideia me parecia magnífica: uma agência de modelos inclusivos mostrando seu trabalho em cadeia nacional. Seria o suprassumo! Sucesso na certa. Portas se abririam e, com certeza, esta exposição abriria espaço na mídia para cerca de 45 milhões de pessoas com deficiência no país. Quem sabe não atrairia empresários interessados em investir neste público? Aliás, acho importante ressaltar, que 45 milhões de consumidores não é nada mal, né, monamour?

E aí nos deparamos com exemplos clássicos do que estou falando. A poucos dias das Paralimpíadas, momento histórico para qualquer atleta, quem apareceu como rosto da campanha Somos Todos Paralímpicos? Atores globais, mais conhecidos por seus corpos esculturais do que pelo talento. Para piorar ainda mais a situação, o que eles fizeram? Transplantaram as cabeças destes famosos para os corpos dos atletas. Será que tal inspiração veio do romance de Mary Shelley, Frankstein? Só pode.

Não existe nenhuma pessoa com deficiência capaz de representar os atletas na grande mídia? O que o deficiente tem de tão feio que não pode ser exposto e faz com que esses gênios da publicidade os esconda? Seria freak demais?

BIZZARO! Prefiro o Frankstein.

Voltando a minha experiência, confesso que não costumo assistir esse tipo de atração e, a princípio, relutei em participar. A primeira coisa que pensei foi: não posso participar de um programa que se beneficia das mazelas da população para manter-se líder de audiência. Mas, resolvi encarar o desafio. Já que o programa tem tanta visibilidade, quem sabe não conseguiríamos mostrar nossa força?

Caí do cavalo.

Que burro. Dá zero pra ele! Poderia ao menos ter levado uma almofadinha para proteger a buzanfa na queda!

O que vi, na verdade, foi o óbvio. Um circo de horrores, armado para a exploração da tragédia humana! Pessoas simples, com histórias de vidas sofridas, expondo sua intimidade, em meio às lagrimas, para concorrer a um prêmio de alguns mil reais. A apresentadora em nenhum momento se envolveu com os participantes e, assim que o programa acabou, sumiu para não ter de se misturar com o povo. A produção fez o seu papel. Terminado o programa, era hora de procurar outras pautas para segurar a audiência. Quanto mais melodrama melhor.

Desde o início sabíamos que não ganharíamos o prêmio. Nossa “tragédia” não era capaz de fazer frente à realidade de um senhor de rua, que fazia das caixas de papelão, sua casa. Além disso, ele ainda tinha um cachorro vira-lata, a quem cuidava com muito amor. Fala sério, né? Ninguém mais do que ele merecia levar a gratificação.

Além disso, quem me conhece sabe que não sou o tipo de pessoa fadada ao dramalhão – exceto no caso das novelas mexicanas <3. Acho a vida difícil pra caramba, porém MARAVILHOSA! E isso ficou claro nos 30 segundos que apareci nas telinhas.

Devaneios à parte, ao contrário do que imaginava, não chegamos a receber nenhum contato de empresas interessadas no trabalho da agência. Nenhum empresário querendo nos patrocinar, ou simplesmente contratar algum modelo para fotografar e representar sua marca.

Voltando a minha experiência, creio que tenha sido ingênuo em acreditar que a exposição midiática nos abriria grandes portas. De qualquer forma, acredito que fizemos nosso papel bem feito. Mostramos nosso trabalho e, em momento algum, ficamos cabisbaixos ou passamos a imagem de vítimas de qualquer situação. Ao contrário, partilhamos alegria, experiência, profissionalismo e beleza, mesmo com nossas diferenças.

Concluo afirmando que a experiência foi válida. Ela deixou claro que temos um caminho ENORME a trilhar. Ainda temos muitas batalhas até acabar com o preconceito. E, quando falo de preconceito, não estou apenas falando de uma única minoria, estou falando da GRANDE MAIORIA deste país que é marginalizada todos os dias. Do garoto da periferia que é acusado por um crime que não cometeu, da pessoa com deficiência, das travestis e transexuais que são assassinadas aos montes, do negro que é obrigado a ouvir piada racista e tem que entender que a brincadeira não foi por mal, da mulher que luta por uma posição de igualdade na sociedade. Enfim, daquilo que é diferente e incomoda àqueles que se julgam perfeitos.

Sílvio Carvalho

Sílvio Carvalho

Sílvio é aquele tipo de cara que não gosta de rótulos. Às vezes acorda uma coisa, às vezes, outra.Às vezes príncipe, às vezes sapo. E às vezes, nem príncipe, nem Sapo. Vive assim, viajando nas ideias.
Sílvio Carvalho

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