Sobre a necessidade dos heróis perfeitos • We Love

Sobre a necessidade dos heróis perfeitos

herois

Tenho uma ideia formada na minha mente do que é entretenimento, seja ele arte ou não, tendo o mínimo de inteligência ou não.

Meu caráter tem muito de toda cultura que absorvi, seja rasa ou profunda (já li tantos filósofos que tive delírios de me formar em Filosofia). Mas com a idade, aprendi que “a arte imita a vida” não era a regra na minha infância e que isso mudou bastante do meado dos anos 2000 até hoje.

O maniqueísmo e o uso da jornada do herói tiveram sua função. Heróis bravos e heróicos (aqui vale a pena ser redundante) eram necessários e até certo ponto ainda são inspiração, mas a indústria, principalmente a Netflix, voltou seus esforços criativos para o real. Um real educador a meu ver, mas que tem muita gente que não está entendendo.

O exemplo atual que me intrigou foi Girlboss. Baseado de forma livre, como todo episódio trata de deixar bem claro, na vida da Sophia Amoruso, empreendedora que fundou um negócio de venda de roupas vintage no eBay.

A série, diferente do livro, não foca tanto no processo de criação do negócio e sim na vida amorosa e, mais importante, nos amigos e pessoas que passaram pela vida da Sophia.

Desde críticas em grandes jornais, passando por blogs e pessoas, até chegar nos textões na minha timeline, o foco foi a irritável, arrogante, pouco indulgente e autoritária protagonista, tirando o brilho da direção de arte formidável, fluída e calma, e uma escolha de elenco com o amado Ru Paul, Johnny Simmons (o jovem Neil de Scott Pilgrim), Jim Rash (ator e roteirista de milhares de coisas que você já deve ter visto por aí) e Ellie Reed extremamente carismática, como a melhor amiga e principal entusiasta do negócio de Sophia.

Independente da protagonista, uma das mensagens da série é que não conseguimos “chegar lá” sem ajuda, sem as pessoas que acreditam em nós. Também sem quebrar a cara, porque apesar dos adjetivos negativos atribuídos a Sophia, ela é ensinada o tempo todo sobre alguns valores da vida, aprendendo de verdade ou não. Afinal, se o espectador entender, é realmente necessário que a protagonista tenha sua redenção e vire uma pessoa “melhor”?

Talvez a raiva que vi tenha ligação com vivências ou até mesmo com uma identificação com a personagem principal. A ficha caindo de que somos ou conhecemos pessoas que tem alguma ou todas as características não aprováveis de alguns dos novos protagonistas, mas sem dúvida é uma decepção com a própria realidade que não é feita de heróis, mas de pessoas disformes, moldadas cada uma por suas próprias experiências, fracassos e vitórias.

Pessoalmente, acho ótimo que se produza um conteúdo mais profundo e pautado em pessoas reais, nas dores e sofrimentos, imperfeições e falta de um ou outro requisito heroico e perfeito. Afinal somos reais, mas quem disse que não existem heróis reais?


“Girlboss nos mostra que toda garota tem o direito de ser o que quiser e que tudo bem, se você falhar. Pode não ser fácil, mas você precisa continuar seguindo em frente e não desistir dos seus sonhos. Mesmo que as outras pessoas não acreditem em você.” Leia também: Sobre Girlboss e outras coisas

David Moratório

David Moratório

Redator e analista de conteúdo, amante de livros, domingos em casa e series bobas. Filósofo de hamburgueria que acredita que a única salvação é o amor.
David Moratório

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