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Sociedade “C.creta”

Foto: Roberta Profice

As aspas indicam que não, não é um erro de ortografia, é um “c” pontual, onde cabe uma palavra que eu não gostaria de dizer nunca mais: câncer. Vi duas das pessoas que eu mais amava no mundo travarem uma briga desleal contra esse monstro, ambas perderam. E olha que uma delas era um super-herói!

Desde que perdi meu pai há dois anos, quatro meses e 19 dias, recebi uma carteirinha de uma sociedade secreta, onde todos se reconhecem no silêncio, discutem diagnósticos como oncologistas, só que (de)formados pela dor, se abraçam como velhos conhecidos, desfazem desavenças como mágica e protegem com escudos fortes possíveis candidatos a fazer parte do clube, onde a ideia é não entrar.

robertaPerder alguém é sempre uma tragédia emocional, independente das circunstâncias, mas perder alguém pro câncer é ler de trás para frente um manual de perguntas sem respostas, onde imperam por quês, comos, quandos, ondes e infinitos nãos. “Não, não sabemos de onde vem”, “não, não sabemos pra onde vai”; “não, não sabemos mais o que fazer”; “não, não há mais nada a ser feito”. Quem viveu entende o quão desesperador é escrever, às cegas, uma história cuja última página já está impressa.

Quando você se vê ao lado de um paciente em tratamento paliativo você percebe que a vida é frágil, mas a coragem, indestrutível. E, então, tira do bolso uma força até então desconhecida e se fantasia de fortaleza pra ela(e).

E talvez essa fantasia seja o grande elo, nos reconhecemos pelas frestas desse muro que criamos para proteger quem amamos. E talvez nosso papel seja o de distribuir esses tijolinhos não apenas entre nós, os membros, mas pelo mundo. Nunca mais você vai ouvir ‘câncer’ sem que aquilo de alguma forma te diga respeito. Sua dor vira uma missão e uma lição: há, sim, amor pós-dor. E ele só cresce a cada estender de mão.

Fiquem tranquilos, amigxs, a gente tá aqui – e temos reforços divinos! – pra lutar com vocês. Nós vamos te olhar de um jeito, que você vai se sentir acolhido. É o olhar de quem entende tudo o que você está passando/sentindo. Não há alívio maior. Acreditem.

Embora nosso dicionário seja ao contrário, uma coisa não muda: o “f” de fé” está logo ali na frente do “c”. Não a percam de vista, o fim da sua história ainda pode ser escrita por você(s). Que sorte! <3

Um beijo, Beta (membro da S.C).

(Para Clarisse, Luiz e Francisco)

Roberta Profice é colunista do We Love e aparece por aqui todas às sextas.
Leia outros textos dela.

Publicado originalmente em julho de 2016

Roberta Profice

Roberta Profice

Jornalista, carioca, mãe do Du, dona da Martha, cervejeira, que divide seu coração entre a Má, a praia, a escrita e a cozinha. Nada necessariamente nessa ordem. Escreve todas as sextas.
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