A solidão me fez gótico, emo, vampiro e rockeiro • We Love

A solidão me fez gótico, emo, vampiro e rockeiro

A solidão me fez gótico, emo, vampiro e rockeiro | Créditos: pixabay

Eu sempre ouvi todo mundo falando que gótico é depressivo. Hoje em dia, talvez depois do meme “A solidão me fez gótico, emo, vampiro e rockeiro”, as pessoas associam praticamente tudo de triste ou blasè à subcultura. Claro, é só tirando onda. Ou não. Porque, provavelmente, algumas pessoas têm um certo conhecimento acerca da subcultura e sabem que aquilo é, de fato, a tão comum “zueira br heu” – ou qualquer que seja o termo. No entanto, como praticamente tudo “engraçado” (entre aspas porque é bem relativo) que sai na internet viraliza, a grande parte da população virtual não faz ideia do que fala. E fala. Fala muito. Até cansar e outra coisa tomar o lugar daquele que já perdeu a “graça”.

Os memes que ilustram as redes sociais são inúmeros, e alguns são até engraçados. Dá pra ver que o autor está inserido na subcultura ou, ao menos, tem certo conhecimento dela. Outros, todavia, são ofensivos. Ou eu, em algum momento, me senti ofendido ao lê-los. Decidi me centrar em três bastante compartilhados: “Muito engraçada a sua piada, mas não vou rir porque sou gótica”, “é gay ou gótico?”, “você é meio gótico, né?”. É necessário deixar claro, antes de tudo, que esta é minha opinião e não corresponde necessariamente à verdade universal.

1. “Muito engraçada a sua piada, mas não vou rir porque sou gótica.”

Na verdade, quem está inserido na subcultura costuma se divertir bastante. Eu nem entendo de onde veio esse meme. As baladas góticas são iradas! Claro, se alguém se deparar com as figuras de preto, usando roupas, maquiagens, cabelos e acessórios extravagantes, talvez não tenha a mesma impressão; talvez fique assustado. Acontece. Esse estigma de que todo gótico é depressivo é absolutamente irreal. E chato. Depressão é uma doença que atinge seres vivos. Não importa muito a raça, orientação sexual, visão política ou filosofia de vida. Pessoas ficam deprimidas. Ponto. E há estudos que apontam depressão em animais também, imagine! Eu conheço religiosos que sofrem da doença; conheço artistas que sofrem da doença; conheço forrozeiros que sofrem da doença e por aí vai. Mas basta ver alguém de preto que o pré-julgamento é imediato: “coitado(a), precisa de Jesus pra acabar com [insira aqui a palavra que mais lhe for conveniente]”. Na maioria das vezes, inclusive, a pessoa que julga está fazendo somente uma projeção do que tem no próprio interior, mas aí já é conversa pra psicologia. Em síntese, subcultura gótica e depressão não estão, em hipótese alguma, interligadas.

2. “É gay ou gótico?”

Outra besteira que virou premissa para julgar a subcultura e quem faz parte dela. O comportamento feminino é, de fato, muito mais valorizado no meio, já disse Antoine Durafour, em Le Milieu Gothique. Isso, no entanto, vem do movimento da época. É muito assunto histórico pra abordar agora, mas vale deixar claro que homens com comportamentos femininos não são necessariamente gays. Andróginos, que também fazem parte, não são necessariamente gays. Podem ser? Podem. Mas gênero e orientação sexual não importam na subcultura, por isso, pessoas que iriam compor a comunidade LGBT – ainda não estruturada na época – se sentiam acolhidas no seio gótico. Sabe aquele lugar que você pode se sentir livre? Lá no final da década de 70, quando ganhou nome, a subcultura gótica começou a acolher qualquer um que tivesse algo em comum com seu significado. Em síntese, subcultura gótica e orientação sexual não estão, em hipótese alguma, interligadas.

3. “Você é meio gótico, né?”

Não. Essa seria minha resposta. Ressaltando mais uma vez que esta é minha opinião, ou você é algo ou você não é. Muitos adeptos da subcultura dizem que não são góticos. Talvez pelo estigma, talvez por ter se tornado algo mainstream, talvez por ela ser vista como uma “fase adolescente rebelde” ou talvez porque não se sintam mesmo. Outros assumem. Eu, particularmente, não gosto de rótulos. Afirmo que não estou mais inserido porque na cidade onde moro não existe cena. O que é uma pena. Tive oportunidades de frequentar as cenas de alguns lugares e é absolutamente incrível. É uma sensação de estar em casa. No entanto, não existe um livro de regras para se tornar gótico ou algo do tipo. Você se encontra na subcultura ou não. Acabou. Mesmo no meio, hoje em dia existe uma polêmica muito grande quanto à definição do termo. Pra mim, pode ser pela música, pode ser pelo estado de espírito e pode ser pela moda. As três coisas são maravilhosas! O que não existe, contudo, é um “meio comprometimento” com o estilo de vida. Ou você escuta os Bauhaus da vida ou não. Ou você conhece bem a sensação de nostalgia e melancolia (vale ressaltar que esta última é somente a consciência real da efemeridade das coisas) ou não. Ou você gosta de um guarda-roupa preto ou não. Em síntese, subcultura gótica e ser “meio alguma coisa” não estão, em hipótese alguma, interligados.

Se eu pudesse, falaria sobre o assunto por horas. Até porque está aí um tópico cheio de subtópicos. Uma subcultura cheia de ramificações, rica em estilos, música, arte. É uma pena que, às vezes, ela é reduzida aos memes tantos e à “zueira que não tem fim”. Ainda assim, vale dar uma pesquisada antes de julgar, hein? Isso serve pra tudo. Até porque, em síntese, subcultura gótica e pré-conceito não estão, em hipótese alguma, interligados.

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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