Tá tudo bem não dar conta de tudo • We Love

Tá tudo bem não dar conta de tudo

pés

Acordei de madrugada esbaforido porque esqueci de estender a roupa. No meio do sonho, uma máquina de lavar assassina expurgava vestuários a uma velocidade ameaçadora. Calças jeans voavam, camisetas de estampas engraçadas aparentavam agora expressões apavorantes, cuecas e meias faziam voos rasantes como minions em missão suicida. Levanto e, vagarosamente, coloco peça a peça no varal, enquanto repasso mentalmente a agenda do outro dia: reunião na manhã, almoço com o amigo, terminar uma apresentação à tarde, tentar ir à academia, jantar com o namorado, assistir àquela série que todo mundo já terminou e só falta você, entre outras tarefas.

Volto a deitar já cansado com o dia que nem sequer raiou e reclamando mentalmente que não vai dar tempo de fazer tudo. Realmente, não deu. Cancela almoço, posterga prazo de apresentação, academia talvez na próxima encarnação… O jantar permanece, porque temos que nos alimentar em algum momento. Mas vai ser em casa, de meias e moletom, assistindo à série que você precisa a todo custo terminar. Deito novamente.

Ponteiros gigantes perturbam a minha paz. Pulo de um relógio para o outro quase como num universo de Tim Burton. Mas ouço gritos. O colorido mundo do cineasta americano é substituído por um cenário de suspense. Pessoas me chamam, me cobram, me apressam. Há coisas inacabadas em todos os lugares e não há nada no mundo que amedronte mais essa geração do que isso: não finalizar algo. Começo a suar no sonho e no travesseiro. E, sobressaltado, me levanto mais uma vez. Era só mais uma noite interrompida por um pesadelo qualquer. Mais-uma-noite-interrompida.

E não sou apenas eu.

Na varanda, com um copo d’água, avisto dezenas de luzes acesas.

Estamos em São Paulo, maior cidade do hemisfério sul do planeta. Aqui, nos ensinaram a viver paliativamente sob efeitos psicotrópicos e nos disseram que era normal essa taquicardia que nos assola. Porque temos muito o que fazer e não podemos nos dar ao luxo de parar. Não há ninguém que nos cobre mais por isso do que nós mesmos.

Precisamos entender que iremos mesmo esquecer aniversários de pessoas queridas, não participar de algumas reuniões importantes, prorrogar prazos, deixar de assistir a coisas que precisávamos ver, perder datas comemorativas em família, negociar até transa… E tá tudo bem. A única coisa que a gente não pode perder ou deixar de fazer é cuidar de nós mesmos. Porque, no fim das contas, a nossa sanidade mental é o que nos faz seguir em frente. E o mundo todo precisa que sigamos em frente.

Essa noite vou repetir essa máxima.

E acho que, finalmente, vou conseguir dormir.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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