Third World Problems • We Love

Third World Problems

third world problems | pixabay

Cara, CPTM é um verdadeiro laboratório antropológico. Como já citava o grafite da estação Utinga: No trem, (a)massa.

Estação Pinheiros, 9 da manhã.

“Atenção, senhores usuários, informamos que, devido a alterações na rede elétrica, os trens estão circulando com velocidade reduzida.”

Um minuto de espera.

Inspiração profunda.

5 minutos de espera.

Multidão chegando da linha amarela.

10 minutos de espera.

“Cadê essa caralha?”

15 minutos de espera.

Multidão ocupa toda a extensão da plataforma.

20 minutos de espera.

Meditação pra acalmar a alma.

Estação Pinheiros, 9h30 da manhã.

“Trem chegando na plataforma 2, tem como destino a estação Grajaú.”

Cena inicial de Tempos Modernos. Calor humano, cecê, um braço na minha cara e o peso do corpo sustentado em um pé só.

Estação Pinheiros, 9h40 da manhã.

As portas se fecham e o trem parte.

Estação Pinheiros, 9h41 da manhã.

O trem para e as luzes se apagam.

“Atenção, senhores usuários, devido a falha no sistema de alimentação, o trem encontra-se inoperante.”

PUTA QUE O PARIU (reação geral).

“É, não tem jeito, a gente tem que rir mesmo”, comenta a moça cuja teta se recostava sobre o meu ombro.

A ÚLTIMA COISA QUE A GENTE DEVERIA FAZER EM UM CENÁRIO COMO ESSE É RIR. 

Adoro o senso de humor do brasileiro, mas acho que já chega dessa martirização cômica, né? Os caras lascam o chicote e vocês continuam achando que a gente deveria rir? Eu não tenho nada contra fazer meme. Adoro, tô viciado no da Jean, inclusive. Mas, na boa, achar que a única coisa que a gente pode fazer é rir, é aceitar uma condição de passividade que NÃO deveria existir em uma “””democracia”””.

Eu enxergo teoria da conspiração em tudo e tô começando a acreditar que essa cultura do humor na desgraça tá sendo mais uma ferramenta de dominação. A gente sofre e ainda tem a obrigação de sorrir? Ah, me poupe.

Já passou da hora de chegar lá no sinhô prefeito/governador/presidente e pressionar o mano da mesma forma que o segurança pressiona a gente pra fechar a porta na estação Vila Olímpia. Não sei se você tá sabendo, mas tão propondo umas reformazinhas bem sofridas aí e, se você continuar rindo, tu vai continuar sendo amassadx até o dia em que receber um papelzinho conhecido como “atestado de óbito”.

Desde segunda não sobe água na minha caixa. Eu não tô rindo. Liguei e reclamei. Já pensou se cada um naquele fucking bairro tivesse feito o mesmo? Eu não sei vocês, mas Deus (Alah? O universo?) me deu uma voz e eu tô super a fim de usar.

Partindo do ponto de que todos somos necessariamente usuários de serviços e produtos no nosso dia a dia, a nossa função é dar feedback também – principalmente quando dá merda. Então, bora botar a boca no trombone.

Parafraseando a francesa Julie, “não confio em políticos, o mundo muda através das pessoas”, mas não de pessoas que ficam só rindo.

Igor Amâncio

Igor Amâncio

Produtor de conteúdo no We Love. Quase jornalista, amante da música, arranha um violão como ninguém. Um dia decidiu deixar de lado o video game e resolveu jogar com as palavras.
Igor Amâncio

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