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Tire o machismo de jogo

woman

Não se fala de outra coisa nas redes sociais além do caso dos brasileiros e a russa. É bem complexo, porque, por um lado, está lá escancarado o machismo nosso de todos os dias. Por outro, ver toda repercussão que tem tido, mostra que, TALVEZ, estejamos criando consciência do quanto o feminismo se faz importante.

Eu amo futebol desde muito nova. Fiz esportes. Fui a estádios. Pulei muro pra jogar pelada na quadra do colégio vizinho ao prédio. Mas, desde sempre, tive que provar que eu poderia jogar futebol sendo menina. Por alguma sorte, pude exercer o meu direito de ser amante de futebol. Talvez, tivesse algum talento, o que levava aos meus amigos a me verem como igual. Talvez, crianças não distingam qualidade futebolística pelo gênero. Mas, de verdade, não consigo afirmar.

Cresci jogando bola na praia com meu pai e irmão. Cresci aprendendo a jogar em equipe. Cresci sendo bem competitiva. Cresci enlouquecida por Copa do Mundo. Cresci tendo que provar pros amigos dos meus pais que eu poderia entender de futebol mesmo sendo uma garota. Quando eles faziam aqueles comentários: “mas você não tem medo de se machucar?”, “mas futebol não é esporte pra garota”, “seu pai te deixa jogar futebol?”, “duvido que você saiba os anos que o Brasil ganhou a Copa do Mundo”. À época, eu gostava de responder a todas as perguntas, porque eu sabia as respostas e me fazia bem ouvir: “ela realmente entende”. O tom de surpresa me rondou durou muito tempo. Hoje, não sinto a necessidade de provar que eu entendo de futebol ou por que eu gosto de futebol – ainda bem que a gente amadurece!

Nas competições, os times femininos eram minoria. Era, incrivelmente, desconfortável caminhar pelos ginásios usando o uniforme. Muitas vezes, usávamos moletons que cobriam a bunda até a hora do jogo começar – detalhe, eu cresci no Nordeste! Os homens nas arquibancadas, os alunos e até professores te fitavam dos pés as cabeças. Avaliando as suas formas, o seu corpo e te diminuindo, às vezes, sem dizer uma palavra, apenas com um sorrisinho; outras, com palavras grosseiras que te faziam ter medo e vergonha por estar ali.

Durante os jogos, o riso fora de quadra era visível. E a surpresa também, quando percebiam que uma ou outra garota jogavam bem. A frase que eu sempre me lembro dessa época é: “você joga muito bem para uma garota”. E era triste, porque eu poderia não ser uma Marta, mas eu tinha talento e tinha consciência que jogava bem, como qualquer garoto da minha idade.

Em alguns casos, julgam a sexualidade da garota, quando ela sabe jogar futebol: “também é meio maria-homem”. Não foi o meu caso, eu sempre fui marcada como the girly girl, a menininha que não deveria jogar futebol.

Meninas no futebol são sempre vistas como outsiders. Como se fosse um ambiente que não pertence a nós. As meninas estão ali para embelezar, para ser a líder de torcida, convidadas de luxo. Os homens acham que têm todo o direito no futebol, apenas porque são homens. O que acontece no vídeo é a representação real de como o machismo é injusto, desleal, desrespeitoso e uma vergonha. Não existem “brincadeirinhas” ao ofender/humilhar/denegrir outro ser humano. Não, não vamos imaginar “e se fosse sua irmã/mãe/namorada/avó”. Respeito nunca teve a ver com parentesco. É questão de humanidade e empatia. Todos deveríamos saber.

Não assisti ao vídeo. Já sinto vergonha o suficiente. O triste é saber que, logo, a repercussão vai passar e as tais consequências que os caras do vídeo podem estar sofrendo, serão  esquecidas. Porque o machismo ainda domina a sociedade. É um cabo de guerra que pende para um único lado há muito tempo. Mas o feminismo está aí, justamente, para equilibrar. Nós vamos continuar lutando. E jogando futebol como uma garota!

Bruna Guimarães

Bruna Guimarães

Jornalista & fashion lover. Made in Aracaju, living in São Paulo. Acredita que o amor é sempre destino e glitter, uma segunda pele. Louca por carnaval e mar e sorrisos e pessoas interessantes.
Bruna Guimarães

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