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#nota: o texto é uma mistura de estórias e pessoas.

Um dia, ela jogou o cabelo de um jeito diferente que sempre jogava e sorriu. “Pela primeira vez funciona assim”.

Primeira vez… Estremeceu ao ouvir a expressão. O coração acelerou involuntariamente. “Quem imaginou que eu estaria nessa situação?”, pensou ao terminar de fechar o zíper do vestido, “tô pronta!”.

Diferente da maioria das pessoas, ao ser forçada a encarar o novo, desenvolveu uma autoconfiança que, até então, estava adormecida. Aprendeu que não há companhia melhor do que a própria e, talvez, essa seja a razão dos primeiros encontros serem raros. “Não tenho paciência ou disposição para qualquer um”, insistia em explicar para as amigas.

O novo muitas vezes é assustador, mas descobriu que o ser humano se adapta a tudo. Cada um no seu próprio tempo. “Você só precisa aceitar. Você não vai entender as razões agora (talvez nunca entenda). Mas o quanto antes você aceitar, antes você irá se libertar”, ouviu de um amigo e anotou para a vida. Foi assim que começou a se permitir viver.

Passou por algumas primeiras vezes que são histórias numa bagagem de outra vida. Assim como a história antes dessa vida. Todas estão lá, guardadas. Acessíveis na nostalgia de um piscar de olhos da memória.

De fato, tivera poucos encontros no sentido literal: conhecer, jantar, conversar, sair pra dançar, beijar, transar… O combo completo é algo que ela conta nos dedos. O meio-termo é o que enche a mala de histórias. Mas algo estava prestes a mudar.

“Não estou emocionalmente disponível. Não consigo me manter interessada”, divagava durante a análise semanal. “Na verdade, perco o interesse no dia seguinte e acho que o problema sou eu”, explicava. Aí ouvia da psicóloga “mas por que você acha isso?”. Até hoje, ela não consegue entender porque a terapia insiste em fazer essas perguntas retóricas. “Se eu soubesse não estaria na terapia”, deixava o lado ariano gritar.

Em meio a essas crises existenciais, tropeçou em alguém que a fez balançar. Pela primeira vez, não perdeu o interesse no dia seguinte. “Ele não está tão disponível”, contou no sofá da terapia. “Acho que encontrei o outro eu. Talvez funcione…”, arriscou. A psicóloga riu: “Você precisa entender o porquê do seu interesse pelo indisponível”. Essa resposta, ela sabia. Mas não ousara dizer em voz alta. “Porque, se for disponível, pode virar algo maior. Real”, pensou sozinha.

Chegou ao bar no horário marcado. Ele não. Avisou que estava chegando logo. Ela esperou. Não sabia se havia sido uma boa ideia querer conhecê-lo melhor. Poderia ter deixado ser uma memória de uma festa apenas. “Eu nunca mais vou ouvir os conselhos das minhas amigas!”, pensava ao encarar o relógio, o garçom e o copo de água com gás, gelo e limão.

Perdida na própria imaginação, se assustou quando ele chegou e tocou o seu ombro. O coração acelerou, mas ela jurou para si mesma que havia sido o susto de despertar dos seus pensamentos. Ele pediu desculpas e sorriu ao beijá-la no rosto.

Conversa vai, conversa vem. O assunto não acabou. Brindaram, sorriram, falaram do passado, presente e do futuro. Ele pegou na mão dela, se olharam e, por alguns instantes, não havia o que se dizer. As vozes ao redor cessaram. Como um apagar das luzes. Ela sorriu e mexeu no cabelo com a mão livre. Ele sorriu e a beijou. Por minutos, não havia bar, música, pessoas. Eram eles, apenas. “Química”, ela pensou quando se olharam tímidos após o beijo, “foi isso que me fez querer sair com ele”, anotou mentalmente.

Numa madrugada fria de sábado, saíram pela cidade. Meio bêbados emocionalmente. Andaram sem rumo, de mãos dadas, beijaram-se a cada esquina. Cantaram, tropeçaram. Abraçaram-se na noite fria e iluminada. Estrelas apareceram no céu nublado para vê-los juntos pela primeira vez.

“Não quero que a noite acabe aqui. Eu estou me divertindo muito.”
“Não precisa acabar agora.”
“Vamos lá pra casa?”
“Pra dormir?”
“Sim.. ou não.”

A verdade é que qualquer um dos dois poderia ter dito essas frases. Por algum motivo, sabiam que a noite não deveria terminar ali.

Tinha potencial para mais.
Tinha emoção para mais.

Ela respirou e arriscou. O coração acelerou. Ele abraçava cada parte do seu corpo. O beijo foi ficando ansioso. As mãos trêmulas. Ela não entendia porque estava se sentindo tão confortável, mas não queria procurar respostas naquele momento.

“Toda primeira vez é estranha”, era a constatação entre ela e as amigas. Porque, para elas, com tempo e intimidade, tudo fica mais fácil e melhor. Mas aquela noite foi tranquila. A luz acabou ficando acesa, as roupas sendo jogadas no chão do quarto, onde livros e fotos acabaram sendo atirados da escrivaninha. Ele desenhou o corpo dela com os dedos e, em um breve momento de lucidez, ela constatou mentalmente “ele tem o mapa do meu corpo na boca dele”, como se de alguma forma, eles já tivessem se cruzado em alguma outra vida.

Conversaram por mais algum tempo. Sem roupas, sem reservas. Falaram sobre todas as cicatrizes do corpo, mas não se aprofundaram nas da alma.

“Dorme comigo”, ele pediu e deu um sorriso doce de canto de boca. Ela colocou a primeira camisa que pegou do chão no escuro e deitou ao lado dele. Ele se admirou com a temperatura do corpo dela. Quente. “É sempre assim”, ela deu de ombros. Ele dormiu logo, a respiração dele era leve, confortável. Ela o olhou por alguns minutos. Começou a pensar.

“Foi bom pra uma primeira vez. Rolou uma conexão bem bizarra”, primeiro ponto.

“Ele está dormindo em cima do meu braço. Se eu tirar, será que ele acorda?”

“Você vai ficar acordada mesmo?”

“Essa será a primeira vez que vou dormir com…”, se assustou aí e se proibiu continuar. “Quero dormir na minha cama”, concluiu. Tentou tirar o braço da forma mais leve possível, não conseguiu. Ela se sentiu mal por despertá-lo do que parecia ser um sono bom.

“Desculpa, mas eu vou para casa”, ela tentava encontrar as palavras.
“Não.. Dorme aqui”, ele disse cheio de dengo, virando-se para abraçá-la.
“Não, quero acordar na minha cama”, ele não insistiu. Entendeu que era algo que ela precisava. Em silêncio, ela agradeceu por ele ser perspicaz.

“Eu me diverti hoje. Desculpa por ter te acordado.”
“Não se preocupa, está tudo bem. Eu também me diverti”, se despediram sabendo que algo havia acontecido. Mas ela não queria pensar por agora. Não sabia nem se queria pensar sobre.

(Pensaria).

A semana foi passando. Trocaram mensagens. Encontraram-se com amigos casualmente. Paqueraram-se.

(Existia algo).

“Qual o problema nessa história pra você?”, ouviu da psicóloga.

“Quero deixar as coisas aconteceram no tempo delas… Estou cansada de me forçar..”, ela se permitiu sentir. “Se for, ótimo. Se não, ótimo também. Não quero outro relacionamento e acho que o que eu quero de verdade é egoísta”, confessou.

“O que você quer de verdade?”, ela sabia que essa pergunta viria.

Respirou e tentou explicar: “Casualidade. Sem peso. Sem expectativas. Sem cobranças. Só a intensidade boa dos momentos juntos. Cada um vivendo a sua vida”.

“Por que você quer isso?”

Essa resposta ela já tinha descoberto. Havia decidido, há algum tempo, que dispensaria as previsões, os joguinhos adolescentes, que seria ela de verdade e aceitaria o que viesse por acaso – ou não – na sua vida. “Porque eu quero ser só eu por mais algum tempo”, respondeu.

Eles ainda conversam e se paqueram. Ela está, pela primeira vez, se deixando levar.

Seja lá para onde for.
Ou não for.
E, principalmente, com quem for.

Bruna Guimarães

Jornalista & fashion lover. Made in Aracaju, living in São Paulo. Acredita que o amor é sempre destino e glitter, uma segunda pele. Louca por carnaval e mar e sorrisos e pessoas interessantes.
Bruna Guimarães

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