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Quando o assunto é separação, sempre me lembro de duas situações similares. Uma, infindável e torturante, envolve um Pixinguinha levado e um Pablo Neruda tomado. A outra, que me foi contada por uma colega epistolar, estalou forte no peito: falando de seu término, há alguns anos, disse-me que a divisão de bens não envolveu os discos comprados em conjunto. Eles foram, sutilmente, silenciados nas conversas e permaneceram com uma das partes. Ardilosamente dolorido.

Se o amor romântico embala nossas vidas em tudo o que consumimos culturalmente, da literatura medieval às telenovelas (que daquela, de quando em vez, costumo tirar certa inspiração), sempre pensei em como seria um primeiro término meu. De fato, se ‘Com Açúcar, Com Afeto’ representava não só a doce idealização de uma relação que também envolvia um cantar junto – em todos os sentidos; muito embora eu não cante nada –, ‘Trocando em Miúdos’ trazia, ainda que de forma compungida, a constatação de uma vida construída para além dos corpos, que se espalhava pela sala de estar, se arrastava pelos quartos, até chegar à lavanderia. Não era, obviamente, o desejo pelo fim. Talvez, quem sabe, um aterrissar naquele derradeiro momento, o da encruzilhada, e ter o panorama, feito película, do que foi vivido.

No entanto, nem todos os finais encerram. O meu, por exemplo, trouxe ali embutido um sussurro de começo. Às vésperas de um de nossos términos, você me melindrou. Não bateu o portão sem fazer alarde; nem lançou jarra alguma de vidro em direção à parede da cozinha. Foi pior: resolveu comprar o toca-discos de meu pai. Trinta anos para aquele sistema de som traçar a fina linha da obsolescência, potentemente empoeirado, e ocupar o lugar de minha única herança de família. Que ia embora saltando pela janela, com você como dono.

Não fazia parte, em verdade, de nossas melhores lembranças. Afinal, nunca nos chegamos ao sofá para rodar um de meus discos. Nem de longe era alguma marca, muito menos sobre qualquer um de nossos lençóis. Era apenas um monstrengo, que ocupava um espaço danado, que fazia parte do seu querer, que poderia, um dia, residir num canto que ainda seria meu. Você abriu a caixa, passou para o lado B e sentenciou, decidido e matreiro: se a gente casar, ele será seu novamente.

Enquanto a agulha percorria com ligeireza um disquinho de Edith Piaf, meu pai e eu limpávamos tudo acompanhados de uma taça de vinho. Era domingo à tarde, ele se despedia de um bom Technics que parecia reforçar a sua crença na qualidade dessas marcas transgeracionais – dissimulado e protetor de seus próprios sentimentos, talvez pensasse noutra coisa.

Mas era um domingo ainda distante também. Pela varanda serpenteava aquele ruído nervoso que o vento faz. Na mesa de centro, um cálice para dois. A ponta descia, lânguida, para dar uns chios antes de Guantanamera tomar a sala. Marcava o início que vem depois de todo fim. Que não encerra.

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
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