Tragédia (emocional) anunciada • We Love

Tragédia (emocional) anunciada

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Desde pequena, lá ia ela para dentro do avião. Carregava sua boneca Bem-Me-Quer nos braços e a fazia de travesseiro durante as longas horas até o Velho Mundo. Mal o trem de pouso tocava o chão, lá estava ela novamente dentro da máquina com asas indo rumo ao paraíso escondido, desconhecido pela maioria, mas, para ela, origem. Pela janela, após mais um longo tempo, a menina fitava aquele pedacinho de terra quase escondido, bem no meio do Atlântico Norte e a barriguinha já roncava só de pensar na sopa feita com pão dentro.

Sair do avião era um abraço. Bastava pisar naquele solo para sentir-se em casa, embora o passaporte indicasse que dela mesmo era a terra colonizada. No lugarzinho dela, contos de fadas tornavam-se redundância, lá tem vulcão de verdade, fumaça que sai do chão, mar que não tem fundo e vilarejos mínimos que se fantasiam de bairros só para ter mais conversa. Tem cabra no quintal, horizonte que não acaba e até visita de Nossa Senhora.

Embora a volta sempre fosse inevitável, parte de seu coração sempre habitou aquela ilhota. Não fosse lá, não haveria ela.

Os anos se passaram e as férias ficaram cada vez mais espaçadas. O capitão da Nau que trouxe todo seu universo até o Novo Continente teve de se despedir para uma viagem sem volta. Foi desbravar os céus e deixou suas três Marias como guia. Ele virou uma roseira no quintal da casa na rua alta e uma saudade que aperta no sexto dia do mês.

De cá, a menina crescida sempre trouxe como estandarte a origem inusitada. Sempre contou sobre sua terra secreta e se orgulhou da origem. Deve ser encantador vir do lugar de onde “quase ninguém veio”; para ela, sempre foi. Um dia, inexplicavelmente, um vilão em forma de furacão apontou para o seu pedaço de chão e prometeu fazer bagunça por lá. A moça ficou desolada. E se os ventos embaraçassem os cabelos dos seus e as grandes ondas molhassem a rosa tímida? E se o barulho acordasse o vulcão adormecido onde a gente pode entrar?

Parte do seu mundinho caiu por uma tarde. De longe, as notícias chegavam devagar como se atravessassem o oceano no bico de uma gaivota. A menina chorou, esperou, desconfiou e o tal furacão com nome de gente passou raspando. A previsão era de que acertasse em cheio sua ilha, mas deu de banda pra leste e foi-se embora deixando tudo no lugar. Cá de perto, eu desconfio de duas coisas: ou a visita de Nossa Senhora abençoou mesmo aquele lugar, ou o velho capitão bigodudo laçou esse tal Alex feito via nas festas dos touros e o levou pra longe do seu lar, só pra sua menina poder voltar e encontrar tudo do jeitinho que ele deixou pra ela.

Com essa história, eu aprendi uma lição valiosa: qualquer lugar seguro torna-se uma frágil casa de palha quando abriga aquilo que mais amamos. Dá medo de perder (mais uma vez).

Roberta Profice

Roberta Profice

Jornalista, carioca, mãe do Du, dona da Martha, cervejeira, que divide seu coração entre a Má, a praia, a escrita e a cozinha. Nada necessariamente nessa ordem. Escreve todas as sextas.
Roberta Profice

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Comments

  1. Vou te contar um segredo, já cruzei um arco-íris com essa menina sardenta de cabelo farto! Verdade, JURO! As vezes me confundo com ela, e tenho a sensação que ela se confunde comigo também.
    Você não pode imaginar como a cor violeta fica viva quando cruzamos o arco-íris! :)

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