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A moça adentrou o vagão e avisou que cantaria. Junto do violeiro, seu parceiro, disse que, se assim fosse da vontade de alguém, era só levantar a mão que ela encerraria a cantoria.

Afinadíssima, começou a entoar ‘Feira de Mangaio’ do mestre Sivuca, tornada inesquecível na voz de Clara Nunes. De repente, quando dizia que havia um sanfoneiro no canto da rua fazendo floreio, ela parou inopinadamente e enunciou que, por problemas técnicos, não poderia continuar. Os olhos, incrédulos, se encheram de água que não caía, mas fervia.

Eu então, sem observar quem havia pedido pela interrupção, disse que continuasse pois queria ouvir o restante. Um outro moço endossou o pedido. Mas ela optou pelo silêncio enquanto mirava o guarda. Desceria na próxima estação para tentar em outro vagão.

Começamos a levantar e dar as moedas que tínhamos nos bolsos e mochilas. Não que isso fizesse os olhos pararem de espumar tristeza. Um ainda disse: menina, cê cantou muito bem, viu, tava ótimo. Ela e o violeiro saltaram numa das plataformas da linha 1-azul do metrô.

E a gente continuou com nossa vacilação melancólica, em estado de abatimento e frustração, porque a sensação de impedimento causa esse torpor. Como se estivéssemos sendo perscrutados por algo de errado. A submissão a uma minoria de um.

Logo aí imaginei como seria se todos se tivessem levantado e começado a cantar com a moça, a dançar um forró bom da gota serena, a se embrenhar um no outro, na bulha e na desordem harmônica que forma a dança. Será que a festa que nem início teve chegaria a algum fim?

O problema estava na moeda, na voz da menina, na Clara Nunes ou na promessa de um forró imaginário, que principiava nas cabeças feito a moléstia que se alastra e contagia?

 

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
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