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Trust no bitch

Marilyn Monroe manda beijos

Eu amo a cultura pop. Nada define melhor o que é a alegria de um fim de semana do que assistir a uma boa porcaria Hollywoodiana – um filme, um seriado – ou ouvir uma música da Katy Perry que a gente gosta em segredo. Eu amo também a Miley Cyrus e o jeito autêntico dela fazer da vida uma sucessão linda de cagadas – como todos nós. Também adoro saber em segredo as notícias mais irrelevantes do mundo (como aquela vez em que o Caê atravessou a rua no Leblon).

Eu amo até os clichês. Os clichês em forma de textos com muitos verbos no infinitvo, os clichês em imagens com exposição estourada e até clichês de tatuagem (com exceção do símbolo do infinito – por favor, não faça uma assim!). Mas, se tem um clichê no mundo pop que eu detesto, é como são desenhadas as protagonistas femininas em 90% seriados.

Não sei o porquê, mas é fato consumado que há uma leva de roteiristas / produtores / diretores Hollywoodianos que invariavelmente não consegue fugir do template. Se existe uma mulher e ela é importante – especialmente fazendo seu trabalho – ela tem problemas emocionais gravíssimos. É o caso da Olivia do Fringe, da Sonya do The Bridge, da Sarah do The Killing, da Michonne do Walking Dead, a Teresa Lisbon do Mentalist ou da Debra do Dexter.

Para não ficar só nas séries de suspense, também temos a Cameron, do House. E quase esqueci a – quase maníaca – Carrie, do Homeland. Curiosamente, essas mulheres tem, especialmente, uma coisa em comum: elas são boas no que fazem. E parece meio claro no imaginário popular que isso não pode sair de graça se você for do sexo feminino: para ser uma mulher assim, seu template tem que incluir no mínimo um comportamento masculinizado, falta de tato social e, de preferência, um passado bem pesado que foi o ponto da virada para você virar a esquisitona das galáxias.  (Apesar disso, nesse tipo de série, ela eventualmente ainda pode ser enganada por um homem com muita lábia e cheio de promessas).

Isso para não mencionar outro tipo de clichê comum: a sedutora-manipuladora. Ela tem a sua versão no True Detective, com a Maggie Hart, ou no House of Cards com a Claire Underwood. Cersei ou Melisandre, no GOT. Até a Joan do Mad Men. Por que diabos só podemos ser as duas coisas? Não tem espaço para as mulheres razoáveis? Bonitas, bem sucedidas – e porra – legais? Por que esses biotipos não se repetem com os personagens femininos?

Nessa hora, alguns dos meus melhores amigos costumam dizer que tudo isso é a minha visão ultrafeminista enviesando as coisas. Mas, para e pensa: em qual seriado a mulher – trabalhando num papel considerado masculino na sociedade – era uma mulher “de boa”? Assim, sem nenhum passado medonho, sem crise de identidade? Parece que lá, onde ficam esses seriados e contam essas histórias, gente de bem com vida, bem resolvida, casada ou solteira, com filho ou sem, bonita – e competente, tá em falta, gente.

Não estou dizendo que na vida das mulheres de verdade não existem problemas. E é claro, personagens complicadas (homens ou mulheres) tem sempre seu charme. Mas é uma puta sacanagem essa mania de criar personagem que vive em função do problema. Esse tipo (de falta de representatividade) faz a gente achar que só tem um caminho: ser uma vadia manipuladora ou uma psicopata genial.

Mas eu vou dar a real: não tem uma mulher de verdade por aqui existindo assim não. As que eu conheço, vivem apesar dos problemas, e vivem tão lindamente que é nelas que eu vou buscar inspiração todos os dias. Então tá mais que na hora do mundo cair real e começar a retratar o mundo com mais Fefas, Renatas, Lunas e Lucianas. Gente talentosa, competente, linda, sem template – que acorda de mau humor e tem bad hair day, que dá conta das crianças, das contas, das rasteiras da vida e do cachorro – e, apesar de tudo, isso ainda ser foda para caralho no trabalho.

Então, galera, se Hollywood ou mais alguém quiser te dizer que não dá para uma mulher pra ser tudo isso: meu conselho está no título.

Publicado originalmente em setembro de 2015
Isabela

Isabela

Escreve sobre futuro, história, curiosidade, gente e faça-você-mesmo. Vegetariana, de esquerda e feminista, mas incapaz de falar sobre esses assuntos de maneira arrazoada, por isso, não a provoque. Nasceu na roça, mora na cidade, guarda as duas metades e tem memórias de coisas que nunca viveu.
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