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Tudo bem você não saber o que quer para sua vida

praia solitário sozinho | pixabay

Sei que pode parecer desesperador, mas tudo bem mesmo. Tudo bem você abrir mão de um projeto que parecia ter tudo para dar certo e tudo bem você não saber se quer ser médico ou professor. Tudo bem você ter, ao mesmo tempo, vontade de colocar sua vida numa mochila e explorar a América Latina e necessidade de ficar dois dias enrolado em um cobertor vendo filmes na sua cama. Ninguém, no fundo, conhece você tão bem quanto você mesmo – logo, dentro de sua ponderação e em última instância, é você quem sabe qual é o melhor caminho a ser trilhado.

Estou dizendo isso porque já precisei deixar para trás um número inquestionável de intentos e boas intenções. Já precisei fazer um raio X por dia de todas as opções que desbravavam um futuro possivelmente brilhante para minha vida (os imbuídos em crenças astrológicas dirão que isso só é mais difícil para mim porque meu sol é em libra). Já precisei ser muito sincero comigo – sinceridade é uma dádiva gloriosa e estarrecedora.

Então, salvo especificidades que não me competem agora, tudo bem você não saber o que quer para sua vida, principalmente se estiver sob determinadas pressões sociais que, vez em sempre, embaraçam a frágil capacidade de discernimento humano. Nada pior que um desejo paternal velado para que um filho siga determinado rumo na vida – nem tudo se resume à tríade do suposto sucesso profissional: medicina, direito e engenharias, sabiam?

As escolhas estão aí porque elas são opções, não determinismos. Se você tem o dom ou a vontade de aprender medicina para ajudar pessoas, vai fundo, mas saiba que tudo bem querer aprender sobre museologia ou história da arte – e nunca deixe ninguém te desmerecer por isso. Porque, lembre-se, você é o dono do seu próprio caminho e todos os caminhos podem te levar a diferentes finais.

Ah, e com certeza tudo bem você não querer nenhuma das opções. Sério. O que nos torna seres frustrados é a obrigação de ter quer ser alguma coisa imediatamente. Certamente a escolha deve ser feita em algum momento, mas não precisa ser para daqui dois minutos. Tudo bem você pensar, repensar, conversar com seus pais sobre os seus medos e desejos, dizer para seus amigos que seu sonho está fracionado em dez carreiras profissionais diferentes.

O que nos prende a esse limbo assustador chamado profissão é a responsabilidade súbita de ter que dizer, quase sempre aos dezessete anos do primeiro tempo “é para esse futuro que quero chutar a bola e fazer um gol”. Está tudo bem se a bola bater na trave algumas vezes – e, acreditem em mim, ela baterá, por mais certeiro que tenha sido o chute.

Vou contar qual é o lance ideal: não ter vergonha das inseguranças; não hesitar para dizer “eu não faço a menor ideia do que eu quero para minha vida”. Uma amiga disse isso semana passada e pude perceber o alívio inconsciente em sua declaração (talvez o passe mais bonito de sua vida). Golaço!

Eu já quis ser biólogo – mesmo nunca tendo aprendido direito sobre DNA e RNA – cogitei ser astronauta – só porque aos oito anos parecia incrível explorar o universo lá de cima – e ensaiei carreira frustrada na construção civil – ainda bem que não passei naquela prova! Hoje eu tenho um diploma em Rádio e Televisão e estou terminando a faculdade de Jornalismo. Se é isso mesmo? Na maioria do tempo não imagino outra coisa, mas só eu, Deus e meus amigos são testemunhas das crises que me acometem na calada da noite – e se não for isso? E se eu quiser ser médico? Minha família carrega o dom de lecionar no sangue! Por que não estou estudando cinema? E literatura? Definitivamente não é isso!

A única certeza que eu tenho é que as dúvidas afrouxam as certezas e parafusam bem as possibilidades de escolha. Escrevi uma autobiografia quando tinha 10 anos – mas não existe faculdade certa para ego de escritor infantil e também não sei se é isso.

Tomara que seja. Torçamos para que seja. Enquanto isso, sigo dizendo que “tudo bem eu não saber o que quero para minha vida”.

Texto originalmente publicado em 11 de maio de 2017

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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