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Um ensaio sobre a cegueira dos privilegiados

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Há alguns anos, passei por uma experiência única, daquelas que faz você enxergar as coisas como você nunca havia enxergado. Minha prima teve uma ideia bem legal: fazer o aniversário do filho dela numa creche de crianças órfãs. Nesse ponto, não entra em consideração se foi original ou não, mas eu nunca havia ido em uma festa desse tipo. E, quando o convite chegou, achei fofo. Mas just it (que quer dizer “só isso” – você deve saber o significado porque deve ter feito aulinhas de inglês em algum momento da sua vida) e eu escrevo para privilegiados. Não me impressionara o convite ou a proposta. Era mais uma festa de família que “você tem que ir”.

Fui. Ao chegar na festa, passar pelo inevitável procedimento de cumprimentar toda a família e gente que você nem lembrava que existia, sentei. Só neste momento me atentei sobre o que estava acontecendo: “estamos esfregando na cara dessas crianças os quão privilegiados somos”. OMG (outra gíria que você deve conhecer por ser um privilegiado), como me senti mal. As crianças não conseguiam sentir esta dor. Naquele momento da vida, a única prioridade era correr de uma forma que os cabelos e as roupas voassem para trás, como super-heróis fazem. Na mistura entre os pequenos convidados e os órfãos, a alegria de quem viveu pouco demais para saber que aquilo era perturbador. E como era.

Não consegui permanecer naquele lugar, me senti sufocado. Alguns minutos de festa, saí do salão. E decidi subir escadas que, aparentemente, davam a lugar algum. No andar de cima, quartos e camas – diversas camas. Desenhos espalhados por todos os lados, quase todos pincelando a família margarina: uma mãe, um pai e dois filhos. Brinquedos quebrados e malcuidados que, provavelmente, já chegaram neste estado. Caminho mais um pouco e a curiosidade me carrega até o berçário. Duas moças – meninas, se assim posso dizer – tomavam conta de talvez seis bebês. Se revezavam entre sacudidas em pé, balançar berços e fraudas sujas. Todos choravam ao mesmo tempo.

“Oi”, falei assustado quase pedindo desculpa por estar ali. “Olá, pode entrar”, responderam sorrindo. Caminhei entre os soluços e narizes sujos, parando na frente de um berço. Dois grandes olhos castanhos me encaravam como se indagassem: “o que você está fazendo aqui?”. Era uma menina. Acenei com a cabeça enquanto algumas lágrimas brotavam no meu rosto: “eu também não sei”.

Do outro lado da sala, umas das cuidadoras me observava e falou: “essa aí é a Marina”. Indaguei um pouco sobre a história daquele lugar e descobri que não eram apenas órfãos e, sim, uma mistura com crianças abandonadas, como aquela dos olhos grandes que me encaravam do berço. “Chegou tem duas semanas, ainda não sabemos o que vai acontecer com ela. Às vezes, a família volta e se arrepende. Outras, não. Acabam ficando por aqui por um bom tempo”. Pedi licença e saí.

Aquele lugar fechado parecia sugar cada respiro do meu peito. Eu precisava encontrar a saída. Antes de conseguir acha-la, visualizo mais uma vez o salão de festa e as crianças perdidas em sua inocência pulando juntas com um palhaço que acabara de chegar. Gritaria, risadas, doces, papeis voando… Chego à porta. Chego ao sol.

Lágrimas que, até então, conseguiram se abrigar no conforto das minhas pálpebras caem agora cansadas de tanto se segurarem. Olho para o céu a procura de uma divindade qualquer que pudesse socorrer a um apelo de um privilegiado. Mas nada parecia estar disposto a me ouvir.

Não sou digno dessa prece.

Percebi, anos depois, que naquele dia não fomos nós quem “esfregamos na cara” o nosso privilégio. O mundo é quem fez o contrário –  e faz todos os dias. Esfrega na nossa cara, na tentativa frustrada de nos fazer entender.

Até aquele dia, eu era míope. Ainda bem que me deram óculos.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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