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Em dias como hoje, lembro sempre de um texto do Caio Fernando Abreu:

“Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camille Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia a placa, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura”.

Todas as vezes que penso sobre o amor e a loucura, me lembro de um dos caras mais legais que já entrevistei, o Douglas. Ainda estava na faculdade quando o conheci. Douglas era professor de educação física e, um dia, conheceu uma escola de circo. Foi tomado pelo amor e a loucura (será?) e “largou tudo” – mas não como como a gente lê todos os dias no Facebook. Ele era o oposto dos textos que viralizam por aí.

Encasquetou que seria trapezista. Trocou sua casa por um trailer, no terreno da mesma escola de circo – onde mais tarde virou professor. Da última vez que tive notícias, estava na Alemanha, trabalhando como trapezista.

Tudo isso aconteceu quando ele tinha 29 anos e ouviu que “jamais conseguiria”.

O trapézio é a linha tênue que equilibra o amor e a loucura.

Em dias assim, não consigo deixar de pensar em Camille e a frase que conheci graças a Caio Fernando Abreu: não fosse “alguma coisa ausente que atormenta” Douglas ainda seria professor.

Quanto a mim, não consigo me lembrar quando foi que essa “alguma coisa ausente” passou a existir aqui dentro. Ou, como diria minha psicanalista: quando passei a ser um ser faltante – assim como toda a humanidade.

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

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