Uma das poucas coisas de que me arrependo é ter deixado de fazer tricô • We Love

Uma das poucas coisas de que me arrependo é ter deixado de fazer tricô

uma das poucas coisas de que me arrependo é ter deixado de tricotar comer amar e rezar | pixabay

Uma das poucas coisas de que me arrependo na vida é ter deixado de fazer tricô. Aprendi com minha avó Ninette. Quando eu era criança, tinha minhas agulhas e minha lã e fazia sapatinhos para crianças da creche da escola com ela. Tricô parece fácil, mas, quanto mais você quer inventar, mais difícil fica. Aprendi o ponto meia, aprendi a fazer os buraquinhos para passar a fita que amarra os sapatinhos, fiz uns cachecóis; se não me engano, acho que cheguei até a fazer um gorro.

Duas coisas eram gostosas de fazer tricô; saber que eu estava fazendo algo com as mãos – com começo, meio e fim – e ter algo em comum com a minha avó. Depois, ela me ensinou a fazer brownie e teve uma época que o meu brownie era bem bom, hoje eu não sei nem por onde começar. Tanto para fazer o brownie, quanto para fazer sapatinhos de lã para um bebê.

Um dos livros que eu mais gostei é The Last American Man – não sei como o título foi traduzido – da mesma autora que escreveu Comer, Rezar, Amar. Ela é jornalista e, antes de seu ano sabático, ela resolveu ir atrás de um personagem de quem tinha ouvido falar: um homem de uns 35 ou 40 anos, que andava pelos Estados Unidos e só comia o que pudesse colher ou matar e morava na floresta. Em pleno século vinte.

Não vou estragar o livro dando spoilers porque eu realmente acho que vale a leitura. Não é uma obra literária, mas é divertido. Os dois pontos altos do livro: o último homem americano diz que nós investimos muito tempo para criar tecnologias que fariam tarefas por nós para que pudéssemos ter mais tempo livre e, no entanto, a gente arruma mais e mais coisas para fazer e não tem tempo pra nada; além disso, se amanhã precisarmos construir nossos abrigos, sobreviver no mato, ou mesmo, plantar algo para comer, a maior parte de nós não sabe nem por onde começar.

Fui procurar na Internet sites sobre tricô, vídeos no YouTube e tutoriais. Descobri que fazer tricô virou uma terapia anti-stress. Não me lembro de fazer sapatinhos porque estava estressada quando era pequena; acho que eu fazia só porque era legal. Sabe o que mais é anti-stress? Cozinhar. Arrumar o armário. Tarefas manuais.

Ou seja, a gente inventou um monte de máquinas e softwares para livrarem a gente de coisas que a gente não tava a fim de fazer. E isso deixou a gente estressado o suficiente para TER que fazer tricô, cozinhar, pintar livrinhos e brincar de Lego como se tivéssemos quatro anos de idade.

Vai entender o ser humano.

Fefa

Fefa

Administradora, wannabe escritora. Tenho alergia a quem usa muito jargão, acha que design thinking é novidade e não respeita o tempo dos outros. Se eu pudesse viajar no tempo e conhecer uma pessoa, essa seria a Rainha Elizabeth I.
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