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Uma transa que me leve a amar

Uma transa que me leve a amar

Olho pro teto sentindo as costas suarem. O lençol levemente molhado anuncia a chegada do verão. Pego um livro e desisto na segunda página. Busco o ventilador que ficou aposentado por alguns meses e duas estações. Na tomada, ele cospe pequenas camadas de poeira e vibra quase como um ex-prisioneiro que acabou de sair do isolamento. Resolvo escutar música enquanto listo o que preciso fazer no outro dia. Aperto o shuffle numa playlist qualquer, Rita Lee entoa: “sexo vem dos outros e vai embora, amor vem de nós e demora”. Suo mais um pouco. Coço a cabeça inquieto. Dispo a camisa. A bermuda. A cueca. Nu, sinto o meu corpo estremecer; um desejo sem nome.

Dois meses atrás. Viro para o lado sexualmente satisfeito. Emocionalmente satisfeito. Quase chego a desejar um cigarro. Mas não. Apoio a mão no corpo do meu lado, de forma que deixe claro que aquele contato físico é uma forma de agradecer: obrigado por isso. Fecho os olhos e durmo profundamente. Meus sonhos vagam entre estar ali, naquela cama, ou em outro lugar com a mesma sensação.

Duas semanas atrás. No solavanco do ônibus e de olhos fechados, mentalizo uma cama. Pessoas se arrastam em movimentos estranhos. O compasso do prazer é permeado por sussurros e uma música baixinha, daquelas que você precisa encostar o ouvido na caixa para entender o que está tocando. E só entende horas depois: não cantam em nenhuma língua que você conheça. Línguas. Circulam no espaço, pra dentro e pra fora de bocas, de orifícios, de outras partes do corpo. Uma mão agarra o meu pulso. A cena se desfaz. Avisto apenas um par de olhos. Toda a atmosfera, até então carregada de tensão sexual, se abrasa na sutileza de um toque. Me perco. Abro os olhos.

Dois dias atrás. Estou fora do meu corpo. Me observo. O levantar das sobrancelhas constante, a impaciência das pernas, o roer das unhas, a fala trêmula. A ansiedade perturba. Busco a paz em sensações paliativas. Dosadas para “o bem”. Descrevo sintomas numa roda de amigos. “Tesão enrustido” é escolhido por maioria popular como a causa da patologia. Sorrio.

Dois minutos atrás. Eu me despia. Visualizava meu próprio corpo nu, que protestava insatisfeito pela solidão da brincadeira. Um espelho pendurado do lado oposto do quarto me encarava. E eu visualizava uma pergunta simples: qual o nome do seu desejo?

Agora.

Esse texto foi inspirado em O prazer da casualidade, de Natalia Moreno.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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