Vem cá, mana, me dá a mão • We Love

Vem cá, mana, me dá a mão

Vem cá, mana, me dá a mão

É foda ser mulher. A gente nasce fadada a um destino que nem sempre é o nosso. Nos enfiam goela abaixo histórias de princesas, cujas vidas só são salvas se aparecer um príncipe. Nos presenteiam com cozinhas, panelinhas e bonecas que fazem xixi – mas, “ah pra elas já se acostumarem”.

Nos dão menos livros, acreditam menos na nossa capacidade intelectual, nos desafiam menos a enfrentar obstáculos, físicos ou emocionais. A gente cresce e, ainda menina, a gente sangra e ouve: “que linda, agora já pode ter um neném”. E ninguém nos pergunta se a gente quer um, afinal, é nossa obrigação parir. Assim como cuidar da casa, assim como procurar empregos ‘de mulher’.

E quando crescemos, ao invés da gente se unir, a gente se segrega. A gente analisa a outra com olhos críticos, a roupa, o cabelo, o peso. Nós temos que ser como nas capas de revista, é o que o mundo e principalmente outras mulheres nos cobram.

Os homens? Nos separam em prateleiras: as pra casar e as que não são pra casar. Nos olham como objetos, nos condenam à marginalidade por um decote. Nos assediam moral e sexualmente, afinal, esse direito lhes foi concedido logo que nasceram homens e nós apenas mulheres. E, entre nós, seguimos desunidas. Tão desunidas que até no dia que resolveram nos designar há quem critique nossa celebração.

Sim, nossos dias são todos, mas nos deixe ganhar um elogio, uma flor, um carinho, mesmo que de forma superficial, pois somos acostumadas ao caos. Mas nos deixem, também, ganhar o mesmo salário dos homens, competir às mesmas vagas, considere nosso talento, não nossa polidez ou aparência. Nós não precisamos apenas de gentilezas, nós precisamos de respeito, empatia. Vivemos com escudos, cadernos tapando nossos peitos no caminho da escola, esgarçando uma saia mais curta pra sermos poupadas daquele assobio. Doamos nossa alma aos nossos filhos e não somos reconhecidas nem mesmo pelas grandes instituições, pois é “só nossa obrigação”.

Se somos vaidosas, somos fúteis; se somos transgressoras, somos feminazis; se somos sensuais, somos piranhas. Nos deixe ser o que quisermos, nos deixe ser o que somos: mulheres. Essa força do Universo que move a porra toda, que carrega o mundo, as cólicas menstruais, a dor do parto e a de ver nossos filhos partir.

Somos um misto de delicadeza e força descomunal, e essa força é tão gigante que nos permite sobreviver no meio da selva onde somos lançadas todos os dias. Somos nós que sofremos abuso desde dentro de casa, que somos estupradas e mortas, que sofremos caladas, pois raramente temos voz.

Vem cá, mana, para de olhar meu cabelo, minha roupa, me dá a mão – esse dia e todos os outros são nossos. O mundo é nosso, todinho ele. E nós só vamos conseguir ocupar esse lugar se estivermos unidas. Lutar pelos nossos direitos não é ser feminista, é ser mulher. Que essa intensidade do que somos nos projete pra onde merecemos: onde a gente quiser. Feliz todo dia pra nós!

Roberta Profice

Roberta Profice

Jornalista, carioca, mãe do Du, dona da Martha, cervejeira, que divide seu coração entre a Má, a praia, a escrita e a cozinha. Nada necessariamente nessa ordem. Escreve todas as sextas.
Roberta Profice

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Comments

  1. Samantha Janvrot

    Minha Tuty, minha Mom , minha irmã de sangue e de Alma também. É tão reconfortante saber que não estamos sozinhas! Obrigada por mais um texto espetacular.
    Te AMO 💞

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