A vez das poderosas • We Love

A vez das poderosas

mulher maravilha | foto: divulgação dc comics

Eu sempre me arrepio inteira quando escuto a palavra “empoderada”. Se por mais nenhuma razão, porque ela não existe. Alguém leu ou ouviu um gringo dizer empowered e achou por bem traduzir e começar a usar desmedidamente. Se duvidar, vai parar no Aurélio e eu vou ter que aceitar.

Não bastasse a palavra não existir, o significado me incomoda muito. Em tempo, me incomoda como tem sido usada em Inglês também. Ao dizer que algo ou alguém me “empoderou”, o narrador me coloca em posição de precisar da força do outro para ter o tal dito poder. E é aí que eu vejo o problema. Porque o poder está — sempre esteve — em mim e não na força aplicada pelo outro em mim. E eu não preciso que você me ajude. Eu quero é que você não me atrapalhe.

Estou cansada de ouvir e ler sobre essas pessoas, empresas e organizações que acham que estão fazendo coisas incríveis ao “empoderar” as mulheres.

Como se fôssemos inerentemente fracas, sem poder na essência, e apenas a generosidade dos mesmos, ao tomar suas atitudes, iniciar seus programas, mudar suas regras, pudesse me colocar em movimento; para exercer a minha força, o meu poder.

Não sou estúpida e não moro (ainda) em Marte. Eu sei que o mundo é machista, muitas vezes misógino e que, historicamente, nós, portadoras dos dois cromossomos X não tivemos o espaço, o respeito e as oportunidades corretas. Mas nosso poder nunca desapareceu. Nossa força sempre esteve presente.

Tanto é verdade que, mesmo sem nenhum movimento, antes do neologismo, logomarca e bandeira; nós buscamos nossos direitos, nosso status de seres humanos e vimos ocupando, cada vez mais, o espaço no planeta e na sociedade que nos é de direito. E, assim, chamamos a atenção. Dos homens e de outras mulheres. Pessoas que, talvez sem racionalizar, pensavam — muitos ainda pensam — que mulheres e homens são diferentes em seu poder.

Pois eu acho que essas pessoas estão com seus dias contados.

Em Junho deste ano Mulher Maravilha estreou no cinema. É verão no hemisfério norte e essa é a época em que os blockbusters entram em cartaz. No lançamento, o filme bateu alguns recordes de bilheteria (eu mesma vi duas vezes no cinema), mas dois fatos desde então chamaram muito a minha atenção.

Mulher Maravilha já é a maior bilheteria do Verão esse ano. Passou Guardiões da Galáxia 2 e deve chegar a US$800 milhões em vendas de ingressos no mundo todo — quase metade disso nos EUA. Para ter parâmetro: a maior bilheteria de todos os tempos (ajustada para valor atual) é de E o vento levou… com quase US$1.7 bilhão. Titanic, a quinta maior bilheteria, faturou US$1.1 bilhão.

Isso é um feito e tanto levando-se em consideração o tema. Sem falar que o galã do filme é de fato coadjuvante, a heroína é vivida por uma atriz razoavelmente desconhecida e a diretora é também uma mulher.

Outro fato muito interessante: usualmente, depois do primeiro final de semana, os grandes filmes começam a cair de posição no ranking das bilheterias e, normalmente, somem em mais ou menos um mês. Não é o caso com Mulher Maravilha. O filme estreou em 02 de Junho e continua em cartaz em diversas cidades. No último final de semana, ainda faturou mais de US$6 milhões, enquanto Valerian, que conta com Rihanna no elenco sofreu para bater US$15 milhões na estréia.

Enquanto isso, em outras telas, Game of Thrones estreou a sétima temporada: Arya (para os que moram em Marte: uma jovem) descobriu seu poder e agora vai cumprir o que vinha prometendo: vingança contra os que lhe fizeram mal. Se a mãe dos dragões não bastasse como indicativo de quanto as mulheres do universo de George R. R. Martin (não) precisam ser “empoderadas”; no segundo episódio, mulheres decidiram uma guerra. Quando o único homem da sala (um anão), decide dar palpite, vemos a mulher mais velha — uma personagem que, desde que a conhecemos, mostra que seu poder não depende da ajuda de ninguém — relembrar Daenerys: você é um dragão. Seja um dragão.

Sofia Coppola ganhou o prêmio de melhor diretora — foi a segunda vez na história do festival que uma mulher ganhou o prêmio — no festival de cinema de Cannes esse ano com o remake de The Beguiled. Na versão de Coppola, as mulheres controlam a narrativa, não precisam tirar as roupas para seduzir e, mais importante do que tudo isso: seu poder é essencial e inegável. Alguns criticaram o filme de Coppola. Ela subverteu a história, disseram.

Para mim, ela contou a história a partir da perspectiva feminina. Algo que é o que ela faz de melhor em todas as suas obras, diga-se de passagem. Talvez isso explique as cenas de afeto e mesmo a emoção que vimos entre a diretora e o elenco — Nicole Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning — nos tapetes vermelhos de festivais pelo mundo.

E é por isso que eu não quero mais ouvir isso de “empoderar” mulheres. Ouso dizer que essas mulheres sobre quem falei — e os homens próximos a elas — também detestam esse termo.

Eu não preciso que você me empurre. Eu preciso que você não me pare. Eu não preciso que você me ajude. Eu quero que você não me atrapalhe.

Eu não preciso ser empoderada. Eu sou poderosa. E é isso que você tem que deixar eu ser.

Fefa

Fefa

Administradora, wannabe escritora. Tenho alergia a quem usa muito jargão, acha que design thinking é novidade e não respeita o tempo dos outros. Se eu pudesse viajar no tempo e conhecer uma pessoa, essa seria a Rainha Elizabeth I.
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