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“Tudo continua sem mim” – eis a maravilha e a complicação. Foi com esta frase que entendi o que me acomete entre os dois dias anteriores e os outros três posteriores ao fim de uma viagem. Por antecipação e ansiedade – e é necessário ser redundante para dar conta da dimensão do fenômeno –, uma inquietação extrema embaralha a angústia de voltar com o alívio da chegada. Não existem viagens sem a aceitação de que para ir você deve voltar. Contudo, esta constatação não presume alguma facilidade no trato.

Tenho uma leve dificuldade com finais. Ultimamente, desde que me dei conta disso, comecei a observar, em suas iminências, as minhas reações. Das mais variadas pequenas mortes e interrupções: o próprio fim da existência terrena, o término de um livro, o desaparecimento de um colega e outras ausências.

Os ocasos, contraditoriamente, prolongam a permanência. Desta forma, torna-se compreensível a razão de continuar aqui quando tudo já não mais está. Flagelo. A minha tomada de consciência se deu, e é de se esperar, com o meu primeiro contato com a morte, em seu sentido mais elementar. Foi naquele momento que notei esse pequeno contrapasso em meus caminhos. Conversando sobre finais, percebi que, de minha parte, histórias permaneciam constantemente inacabadas. O ponto derradeiro não dependeria nunca de meu lápis.

Com as viagens e os trânsitos não seria diferente. A ideia de continuidade, a banalidade do rito e a rotina que segue livre da presença – afinal, ali você é um mero sujeito observador – deixam-me com certo misto de melancolia e felicidade. A possibilidade do retorno para verificar que tudo segue – mesmo que na superfície – um ritmo particular reafirma a dificuldade de lidar com a minha não existência. No entanto, há algo de impotentemente satisfatório em não alterar realidades: em não fazer a mínima diferença. A sensação do efêmero desfrute é tudo o que não é a vida. Por isso, o retorno da viagem é preciso – e precioso.

Chegar e partir são dois estados de espírito que se intercruzam em mim. Languidez e excitação. Ainda que acima de tudo esteja a trilha. Deixam-se destinos. E os caminhos são os que mais importam. É aqui, onde estou, agora.

P.S.: Este texto demorou um bocado para ter qualquer coisa parecida com um fim.

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
Milena Buarque

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