A vida adulta é um completo desastre – We Love

A vida adulta é um completo desastre

E a verdade é uma faca temporal sutil. Crescemos rápido demais, choramos porque responsabilidades pesam, zeramos a conta bancária antes do quinto dia útil – contas, contas, contas! – e temos vontade de ligar para a mãe no meio da madrugada e dizer: por favor, diga que eu ainda continuo sendo o seu bebezinho lindo. A vida adulta é um completo desastre.

Segunda passada me permiti ler pela milionésima vez, numa hipérbole consentida, o clássico universal, venerado por mais de 200 línguas, imortalizado pela atemporalidade e queridinho da literatura mundial: O Pequeno Príncipe. Eu poderia gastar bons parágrafos falando sobre a história criada por Exupéry, mas vou supor que em algum momento da vida você já se deparou com as aventuras do principezinho perspicaz e com um entendimento assombroso da vida.

A releitura foi um soco no estômago. Em uma iluminação, me vi no centro de uma adultez crônica, insuportável e decididamente desoladora. Ser adulto é absurdamente triste. Por definição, crescer é assumir uma sensatez aprisionadora. Assumir obrigatória e categoricamente um papel “você acha que está falando com quem?”. Crescer não é apenas perigoso, é perigoso em um nível quase assassino – você já se perguntou se a sua criança continua viva aí dentro?

É arriscado ultrapassar a tênue fronteira que define nossa entrada na famigerada fase adulta da vida. O mundo dos adultos é competitivo, regido sob leis cruéis de sorrisos cordiais estruturados no interesse futuro do “essas são as regras do jogo”. É arriscado porque você pode se render e se perder e ficar vagando como um… adulto. Que coisa mais despropositada e desastrosa isso pode ser. Cuidado.

O principezinho do Exupéry me fez olhar para o amontoado de papéis sobre a minha escrivaninha e pensar: definitivamente ser adulto é um acúmulo desnecessário de encargos e frustrações e sonhos destroçados de uma maneira cruel. Crescer é como se você estivesse dirigindo em uma via comprovadamente perigosa. É preciso estar atento, olhar para todos os lados e conferir se todas as peças continuam funcionando direito. Sei que pode ser cansativo, mas essa talvez seja a única maneira de não se envolver em um grande acidente que vou chamar de VOCÊ AGORA É UM ADULTO!

Gastamos demais e sentimentos de menos. Temos medo de demonstrar, queremos alcançar o topo da montanha – não de uma maneira catártica, mas ambiciosa – e vagamos em busca de uma satisfação que não sabemos direito qual é. Crescer envolve escolhas que às vezes não queremos, envolve cumprir um cronograma articulado, envolve cortar o cordão umbilical que nos prende àquela criança que fomos um dia.

O problema, de fato, não é crescer. É crescer com a fúria de ser um adulto. É isso que acaba estragando tudo. Por isso, quero encabeçar um manifesto a favor não de sermos eternas crianças, mas de crescermos respeitando a nossa essência. Crescermos no tempo certo, pedindo ajuda para dar os primeiros passos, mostrando que estamos para aprender e não para fingir que estamos prontos. Crescer com responsabilidade – e espero que neste ponto você saiba a que tipo de responsabilidade estou me referindo.

Começarei a espalhar cartazes de prevenção pela cidade: “Cresça com moderação”. Talvez assim, arrebatados por um surto subido de lucidez infantil, todos comecemos a dirigir na direção da vida adulta com mais precaução e menos velocidade.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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