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Você tem medo de que?

Você tem medo de que? | Créditos: Pixabay

Em 2015, fui à minha primeira festa de Halloween. O trabalho me levou para a Costa Rica, dia 31 de outubro: festa no hotel. Zumbis, bruxas, a Morte, a Morte mexicana, feridos, noivas-cadáveres e também, surpreendentemente, gatas e Chapeuzinho Vermelho e Batmans. Muitas caveiras na decoração, aranhas, muito sangue – me parece tudo tão feito para dar medo que acaba-se sem medo de nada.

Há momentos na vida, que tudo me parece girar em torno de um único tema e fazem algumas semanas que eu penso no medo. Talvez não seja assim tão ao acaso, já que tudo começou quando decidi comprar uns livros para ler no avião e em destaque na minha livraria preferida estava “O vilarejo” – do brasileiro Raphael Montes. Talvez tenham lançado propositalmente perto do Halloween? Até prefiro achar que não, pra vida ter mais graça. “O vilarejo” traz 7 contos de terror, baseados nos 7 pecados capitais; todos se passam com personagens de um mesmo vilarejo e, supostamente, o autor recebeu manuscritos reais e neles, baseou as histórias. E isso é tudo que irei te contar, porque é livro feito para te surpreender.

Li no avião. A cada conto: gula, avareza, luxúria, ira, preguiça, inveja, vaidade e o que há de pior no ser humano ali, de uma forma tão clara, que assusta simplesmente porque se é capaz de reconhecer-se. Ser humano é ser isso tudo e, apesar de nada religiosa, acho que os cristãos fizeram um bom trabalho na lista. Todos podem nos servir ao bem e ao mal, é apenas uma questão de controle – o que torna tudo mais aterrorizante. Eu posso ser qualquer coisa, o que será que me detém?

Minha avó me contava que, se eu deixasse fios de cabelo no chão, pássaros viriam e usariam para fazer um ninho e eu teria dores de cabeça terríveis por toda a minha vida. No condomínio onde eu vivia, havia um homem com algum tipo de retardo mental e nós, crianças, acreditávamos que se ele nos olhasse nos olhos, viraríamos pedra. A solução era ficar imóvel sempre que ele passava. Uma amiga conta que sua avó lhe contava histórias de crianças boas que eram enterradas vivas e, para pedir ajuda, crescia cabelo de suas cabeças, tanto cabelo que saía da terra em forma de grama seca, marrom. Na Costa Rica, conheci uma moça que me contou que sua mãe, ao chamar os filhos de volta pra casa no fim de tarde, dizia que – se corresse – um buraco se abriria no chão, ela seria sugada e nunca mais encontrada. Controlamos as crianças pelo medo?

Quando eu vi “Poltergeist”, mal dormi por uma semana. Não lembro de nada, só de uma cena no elevador; a menininha e nem lembro o que passava, mas tive medo de elevador por muito tempo. Na verdade, tenho até hoje, mas finjo que não. Só vi “O Iluminado” com mais de 30, com um namorado que achava um absurdo eu nunca ter visto. Vimos juntos e precisei dormir agarrada – ou arrumei essa desculpa – por várias noites seguidas. “O exorcista” seria o próximo projeto do casal, mas a coragem não chegou antes que a história de amor terminasse.

Meu sobrinho mais velho é um destemido. Se joga nas ondas, em tirolesas, escala muros, qualquer coisa que remeta a aventura é com ele mesmo – desde sempre, em seus longos 5 anos. Uma vez, perguntei se ele não tinha medo de nada, ele pensou, pensou e respondeu: “tenho medo de monstro”. O mais novo desce a tirolesa de mãos dadas com o pai, foge de ondas, treme de medo a cada aventura em que se joga inspirado pelo mais velho. Ele é das palavras, tagarela como eu, nada de aventuras. Um dia, ouvindo um barulho constante de obra, fantasiou que o lobo mau estava ao lado de casa e foi para a janela gritar: “vai embora, seu lobo mau, lobo malvado!” e qualquer coisa ininteligível do alto de seus 2 anos sobre proteger seus amigos. A coragem se manifesta de várias formas.

Também foram meus sobrinhos que me apresentaram os personagens de “Divertidamente”, que não vi, mas dou uma de Sílvio Santos, minha irmã viu e disse que é ótimo. E foram os dois que me apresentaram ao “Medo”, personagem narigudo e feio mas “é ele quem protege a Riley” – exatamente assim me disseram os dois. Acho incrível como esses dois falam sobre seus próprios sentimentos com naturalidade e me pergunto se eu fui uma criança assim – mas não tenho essa lembrança. E penso que eles são mais saudáveis.

Eu cresci. E tenho medo de enlouquecer, sempre tive. Medo de escuro, de altura, de raios, de janelas que batem quando venta e estou sozinha em casa, de barata, de pontes que tremem quando se anda, dos precipícios ao meu lado nas trilhas.  Mas desbravo o mundo, fico sozinha sem medo, me jogo em novidades – sei ser intensa e viver como se não houvesse amanhã, destemida, volta e meia acabo magoada e triste, e aí choro minhas mazelas sem o pudor de parecer fraca, e sem deixar o medo me deter no próximo capítulo. Acho que também sou corajosa. Coragem talvez seja só enfrentar os próprios medos.

Quando fui na minha livraria preferida, antes da viagem, comprei 3 livros. Só li o primeiro, e comecei a ler o segundo no vôo de volta: “Submissão” – do francês Michel Houellebecq. Às vezes, o mundo parece girar em torno de um mesmo assunto, repito. Voltei no dia seguinte ao atentado em Paris, 13 de novembro. Minha melhor amiga, pessoa das que mais amo no mundo, vive em Paris. Foram algumas horas sem conseguir contato. MEDO. Quando consegui, estava  tudo bem com ela, felizmente. Em casa de amigos, longe de sua própria casa, a algumas quadras de um dos tiroteios na rua. Eu tenho medo de perder quem amo, muito mais que medo de morrer. Dia seguinte, abri o livro de Michel: imagina uma França em que um muçulmano é eleito presidente, daqui uma década. Não poderia ser mais atual e, além de tudo, é tão bem escrito, tantas perspectivas, com um personagem principal tão interessante. Talvez o que se vê nas prateleiras não seja mera coincidência.

E você, tem medo de quê?

Deise Lima

Deise Lima

Conta histórias desde que aprendeu a balbuciar e as escreve desde um pouco antes de aprender a escrever. Caminhos tortuosos a tornaram uma engenheira de computação tagarela, que ousa sonhar que sua missão é levar poesia e sensibilidade por onde passa. E missão é coisa séria, gente.
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