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Você teme a Morte?

Morte | Public Domain

Dizem que a Morte assopra no seu ouvido quando chega a sua hora. Seja num acidente ou numa cama de hospital, ela te dá uma pista de que aquelas cores, aquele cenário e aquelas pessoas compõem o ato final da sua vida. Ela não é a nossa maestra ou a grande autora das nossas histórias; muito pelo contrário: escolhemos deixa-la quietinha de lado, não a mencionamos. Mas, como toda contrarregra, ela é responsável por recolher os últimos vestígios do palco e merece também os créditos do espetáculo.

Temos uma relação estranha com a Morte. Ainda que natural e essencial para o funcionamento do nosso mundo, convivemos por toda a nossa vida com a ideia de temê-la. “Bate na madeira, menino”, você já deve ter ouvido sua vó dizer. Entre histórias que rabiscam capas pretas e fendas na mão, construímos um horizonte sinistro e ensinamos as crianças que é ela quem leva a quem amamos, num ato que beira a crueldade e nos deixa sem chão. Seria a Morte tamanha calamidade?

Há quem diga que não; que a abraça como uma velha amiga, como se a esperasse por longos anos. Aquela que traz alívio. Há quem a enxergue no caminhar do seu dia a dia, não espreitando, mas aparando: “Estou aqui se você cair, vai dar tudo certo”. Há quem aposte todas as fichas que a Morte não se trata de um fim, mas apenas de um novo começo.

Em algum momento da sua vida, você já parou para imaginar o que aconteceria se pudéssemos viver para sempre? De caráter ordinário, o argumento óbvio: nosso planeta não conseguiria absorver tanta vida. Vida, pra Terra, significa Morte. Quanto mais gente habita por aqui, mais o drenamos. E o planeta vai deixando de existir, para que nós possamos viver. É uma bela declaração de amor; é a Morte existindo de uma nova forma.

No fundo, a única forma de conviver com esse medo que nos foi insertado é aceitar uma quase verdade antropológica: a Morte é apenas mais rito de passagem. E precisamos aprender a falar sobre ela; brindarmos a ela. Porque ir embora não precisa ser sinônimo de despedida. Toda vez que pegamos uma nova estrada, temos a chance de narrar uma nova história. Quando essa contrarregra de luxo chegar para fechar a cortina, o que vamos encontrar por trás da coxia? Talvez, seja apenas um novo palco – talvez.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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